As horas passam devagar, muito devagar. Não raras vezes dou por mim a tentar passar o tempo forçosamente num leque de atividades fúteis que vão desde atualizar o feed do Facebook descontroladamente até olhar para as paredes da sala e ver nelas a luz solar que vai dançando, com o passar das horas, com a rotação da Terra, desde a frugaz alvorada até ao ainda tardio entardecer, num período em que o calor ainda se faz sentir em todos os poros da pele. Aproveito assim para dar umas passadas largas no circuito de manutenção do Vale das Flores e para adiantar a escrita aqui no blog.
Aquilo que realmente deveria estar a ocupar o meu tempo, lamentavelmente coloquei em segundo plano, talvez numa jogada de aversão ao controlo mental da situação de espera angustiante, mas a verdade é que arrisco o tão tipicamente português "em cima do joelho" que será verdadeiramente problemático quando se trata de arrumar a mala e ver o que é necessário durante uma estadia semi-prolongada. Fica sempre no ar a sensação de que por mais voltas que dê à cabeça, acabarei irremediavelmente por levar comigo objetos que provavelmente nem chegarão a sair da mala de viagem, tal como sentirei falta de outras coisas na altura em que precisar delas, e aí verão futuramente devaneios a isso relacionados no blog, certamente em linguagem menos própria. Sou um gajo que ferve em pouca água.
Gosto de pensar em mim como uma pessoa perfeitamente adaptável a locais e situações novas sem passar por traumas psicológicos relativos às saudades do ambiente familiar. Nesse aspeto sempre fui bastante independente apesar de nunca ter passado, prolongadamente, por um caso em que não tivesse mesmo nenhum pilar ao qual me pudesse agarrar em tempos mais complicados. No entanto, haverão muitas coisas que indubitavelmente sentirei falta aquando da minha ausência em Portugal.
Na linha de frente estará o Jimmy, companheiro sempre presente e disposto, a amizade mais sincera e verdadeira que podia desejar. Ter um cão acaba por ser uma experiência mesmo marcante: ter alguém em casa que fica em êxtase apenas por te ver, cuja ambição na vida é apenas receber afeto de quem dele cuida, acabou por me colocar muitas coisas em perspetiva. O cão de cada um é sempre o melhor do mundo, e eu penso o mesmo do meu. Não é nenhum bulldog francês, labrador chocolate, ou qualquer outro canino de alto pedigree, nem tão pouco sei ele o que é além de rafeiro, mas é o Jimmy. E neste momento assusta-me imenso ficar sem ele, mais do que qualquer outra coisa. É incrível como foi preciso ele aparecer de rompante na minha vida para ter este sentimento. Encanta-me o descaramento dele, a facilidade em como ele passa do ultra-territorial e da mania de ser mauzão para quem não conhece para, dois minutos depois de ter cheirado, andar a chiar por atenção com o brinquedo dele na boca e a cauda a abanar. Adoro-lhe a franca burrice de não entender nada do que lhe falam ou do que ele mesmo faz, como a surpreendente esperteza de conseguir desenvencilhar os mais complicados estratagemas para aquilo que lhe interessa, como abrir as gavetas para ir roer pares de meias. Ou então será a característica mais marcante dele, o de estar pendurado no parapeito da janela, que sentirei maior saudade. Lá está ele, como o Velho Fiel, a vigiar a rua e a protegê-la de outros animais invasores ou a tirar as teimas a quem por lá passa, ao mesmo tempo que ambiciona pelo retorno do meu pai. O raio do cão até já conhece o barulho que o motor do carro faz. Mal chega à rua, o danado salta que nem uma mola para chiar à janela enquanto observa, ansiosamente, para que o meu pai suba as escadas e lhe consiga dar uma recepção triunfal. Sim, é disso que terei mais saudades.
Às vezes ele pensa que é um gato.
Mas não só. Por mais estúpido que pareça, sentirei saudades da praia, da brisa marítima, do clima quente e seco. Provavelmente. Estranharei certamente, mas o hábito tão lusitano de frequentar a faixa costeira nesta altura do campeonato deixará mazelas a serem sentidas. Fortuitamente, a neve tratará de apagar estes apanágios. A comida também será importante. A maior dificuldade em conseguir produtos mediterrânicos como o azeite, o vinho, os citrinos vai se refletir na minha alimentação, e já me estou a ver a suspirar por um pargo grelhado com batatas regadas a azeite, ou um polvo à lagareiro, ou até mesmo camarão, iguaria que tanto aprecio. Terei de me contentar com a inferioridade dos goulash, dos knedlíky e dos enchidos checos e húngaros. Deveras saudável, como conseguem apurar (vou engordar tanto, foda-se).
Devido à minha opção vincada de querer dar-me com o menor número de portugueses possível, também deverei sentir falta da língua de Camões. Por agora, nego isso, porque os idiomas estrangeiros sempre foram assunto que me fascinou, e vê-los estampados no dia-a-dia é um dos meus maiores motivos de interesse, tal como praticá-los com todas as pessoas que puder falar. É o exercício máximo da cidadania internacional, e pretendo sê-lo na maior extensão possível. Mas o país de origem estará sempre no meu coração, de uma forma ou doutra. Talvez reconsidere arrumar a mala agora, e a primeira coisa que lá entrará será uma bandeira de Portugal, para que assim não sinta a necessidade de passar o meu tempo de Erasmus atrás da ilusão de que quero continuar em Coimbra.

Sem comentários:
Enviar um comentário