segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Porque o inverno é melhor

Não foi por acaso que escolhi ir de Erasmus no semestre considerado o menos apetecível. A Europa Central pode não ser um destino muito apreciado nos meses de frio, mas o que algumas pessoas não sabem é que o clima temperado continental, apesar de mais quente no Verão, apresenta também valores de precipitação mais elevados nesta altura do ano. Imaginem o chato que é um gajo querer curtir um dia de calor, mas surpresa surpresa! o céu está nublado e com vontade de despejar água por aí abaixo. Não é a forma mais agradável de se ver os seus planos estragados, e isso terá repercussões óbvias no humor mais tarde.

Outro dos motivos prende-se com o fluxo turístico presente em Praga. Ir no semestre de inverno equivale a escapar, ao estilo de Neo, às legiões de reformados com calções e sandálias, armados com a sua Canon, prontos a captarem tudo com os olhos e igualmente hábeis na não absorção da substância e da essência de um lugar. Esta é a malta do lazer, especializada na arte de gastar dinheiro - e como a economia local se deleita com isso e patrocina esse fervor ao máximo! - que, não sabendo procurar muito além da óbvia oferta das agências turísticas mainstream, não importa muito nem ao habitante local, que se sente posto de lado no seu próprio território que prefere quem tem maior poder de compra, nem ao estudante de Erasmus, a sua concorrência direta na ocupação do espaço turístico, que vê a sua experiência genuína ser diluída num oceano de comercialização do património, este efémero rio Styx que mais depressa retira alma à cidade por lhe conferir falta de personalidade e de identidade.



Um bom exemplo: a simpática preia-mar de gente à espera da badalada da Prazsky Orloj que ocorre uma vez em cada hora...



Escusado será mencionar que se torna difícil apreciar o que quer que seja. Ir no primeiro semestre significa ter mais espaço, uma abertura maior por parte dos locais, menos saturados pela irritação turística, e, sobretudo, preços mais baixos praticados pela maioria dos serviços, que na falta de carteiras recheadas para tentar enganar, resumem aos preços normais. Tudo isto que acabei de mencionar é verificável também em Portugal, especialmente na minha santa terrinha, onde se nota logo a diferença sazonal. Os meses invernais são frios e mortos, é certo, mas honestos e verdadeiros. Assim o prefiro.

A minha maior razão será, porventura, a neve. Vi neve autêntica uma vez na vida, aos três anos de idade, altura demasiado tenra para ter gostado de algo ou sequer me lembrar, e neve fabricada aos dezasseis, quando fui fazer figuras tristes em cima de uma prancha de snowboard na estância de esqui da Torre. A sensação que deslizar sobre a encosta me proporcionou fez com que aquele fosse facilmente o meu melhor dia de sempre. Quero repetir isso, sem dúvida nenhuma. E despertar o meu profundo desejo de ver e sentir neve, perpetuado pela minha infância seca e quente.

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