domingo, 9 de agosto de 2015

O dilema da praia

À medida que a contagem decrescente para a partida no dia 30 de Agosto vai vendo os seus dígitos progressivamente reduzindo, tento distrair a minha mente ocupando-a com outras atividades. A Íris fez-me vir passar o fim de semana com ela a Lisboa, numa espécie de light training antecedendo as nossas três semanas em Budapeste. Supunha eu.

Ontem de manhã passámos pelo Pingo Doce de Picoas, já vestidos e equipados no estilo de turista pelo qual nutro menor consideração: aquele que vai exclusivamente à praia. É um pouco irónico que eu, sendo algarvio de origem, tenha tanta aversão à praia. Nunca entendi o fascínio em perder horas inteiras a torrar ao sol, fazendo rigorosamente nada. Ok certo, pode ser para relaxar, mas a minha ideia de tranquilidade e descanso não é pousar o corpo sob areia irregular, com os raios de sol intensos a bater-me na cabeça e sendo ocasionalmente importunado por miúdos reguilas a calcar areia para cima de mim porque a ideia de correr para eles é pisotear o máximo possível de sedimentos na berma das toalhas alheias ou, no pior dos casos mas compreensivelmente inevitável, aturar o choro de bebés e crianças pequenas pela mais ínfima razão. Espetáculo, pá. O único motivo pelo qual ainda consigo considerar a praia como um local de lazer será pelos desportos aquáticos e pela boa braçada que alguém pode dar dentro de água enquanto se deixa levar pela energia das ondas. Mas só na minha santa terrinha, onde a água é mais quentinha e resguardada da influência atmosférica proveniente do Atlântico; na restante faixa costeira do país, a água revoltada e fria, em conjunto com a tão agradável Nortada, proporciona um relaxante choque térmico que nos faz perder o ar durante vários segundos. Terapêutico!


Isto sim é uma praia a sério! Não há nada melhor que o meu Sotavento.


Tanto no Pingo Doce como na Praça de Espanha, onde iríamos apanhar o autocarro que nos levasse à Costa da Caparica (e mais tarde também no Metro, como verificaríamos), a sensação de pluriculturalismo era evidente: a invasão de nórdicos que podiam perfeitamente ser provenientes de Jotunheim, ou não parecessem eles gigantes (algo que terei de me habituar em Praga, pelos vistos); germânicos pálidos de mochila às costas sem saber bem o que fazem ou onde estão mas também a não se importar com isso; a horda de franceses, jovens e idosos, perigosamente vermelhos em tudo o que neles era pele e sempre dispostos em grupos de dimensão familiar; a legião de castelhanos, no seu típico metralhar em alta voz, discutindo com o compatriota a recente subida de cotação grega nas bolsas europeias. 

Retiro, aliás, o que disse sobre a mixórdia de culturas: aqui, a cultura resume-se ao sun-seeking, independentemente do idioma ou da nacionalidade. Não me interpretem mal: gosto imenso do convívio com outros povos e a presença destes traduz-se num enorme benefício económico para o comércio visado e gera um enorme fluxo de bens e de positivismo, mas é estranho sentir-me um estrangeiro no meu próprio país, sobretudo quando são os próprios estrangeiros a alienar os locais e se encolhem na sua bolha turística de conforto onde tudo é perfeito e tudo é caro. Consigo contar pela ponta dos dedos o número de estrangeiros que me interpelaram pela rua nem que seja para me perguntar onde é algo. Deve ser por eu ser feio. Não consigo deixar de pensar que quando estiver lá fora me irei pôr à conversa com o maior número possível de locais; é fascinante imaginar o número de histórias enriquecedoras e variadas, de expetativas e de ideologias que as pessoas que vêm de fundos diferentes do nosso têm para me agraciar. Essa será porventura, para mim, a melhor experiência que poderei ter em Erasmus.

Por mais estranho que pareça, as espécies que habitualmente mais se encontram na Costa da Caparica são as tias e os mitras da Margem Sul. Umas passeiam as mamas repletas de silicone cobertas por biquinis ultra-modernos fluorescentes na tentativa de alguém reparar o quão bronzeadas estão e o tão oxigenado/pintado de vermelho forte o cabelo está; já os adolescentes com hormonas ganharam a mania de que são DJ's e colocam os mais recentes hits de kizomba e house nos telemóveis em altifalante, tal Meo Sudoeste; os machos com caps da NY na cabeça, colares ao pescoço, tronco seco e musculado e pernas finas a jogar ao meio à beira-mar, as fêmeas com cabelo pendurado à cebola, seguindo-se umas às outras empinando o rabo ao estilo pavão a molhar os pezinhos onde as ondas rebentam numa dança frequente entre a toalha e a água. Enquanto isso, sou apanhado no meio disto tudo a ler o jornal na sombra do meu chapéu, que aos sábados aparentemente vem com suplementos cor-de-rosa repletos de informação útil acerca de que vestidos as celebridades levaram para a noite na Praia da Rocha. Como cereja no topo do bolo, a água fria estava infestada de alforrecas, que entretanto deram à costa e desidrataram, deixando ao seu largo um cemitério de um dos seres vivos que mais impressão me dá. Saí da Caparica às 16h, cinco horas depois de ter chegado. E já foi muito tempo que lá passei. Isto da praia não é para mim. Hoje vou para os jardins da Fundação Gulbenkian alimentar patos à beira do lago. Aí, ler um livro à sombra de uma árvore é para mim uma ideia muito melhor. Certamente irei aproveitar melhor.

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