À medida que os longos dias de espera se vão encurtando no ermo abandonado que é a cidade de Coimbra durante a época balnear, vai crescendo a ansiedade por se tratar de algo a que nunca outrora tive direito na vida, mas também a impaciência por não saber o que fazer aos minutos que ainda restam, um lento deslizar dos grãos na ampulheta provocando agitação interior quase claustrofóbica na minha mente. Torna-se fulcral a distração. O meu emprego tem realizado um desempenho horrível nesse aspeto visto que agora estou lá um pouco mais solitário, mas tanto os meus leais amigos como a minha sempre insistente namorada ocupam, a espaços, a minha capacidade de atenção. As outras necessidades urgentes, como a obtenção do cartão ISIC (algo que fiz na agência Top Atlântico na Sá da Bandeira, de forma imediata e a chutar papel que até doeu) como a compra inevitável de um telemóvel desbloqueado, também auxiliaram a escavação de segundos preciosos. É como um silêncio gritante. É nestas alturas que sinto saudades da minha terra e da algazarra lá instalada por esta altura do ano.
Assim, propus a mim mesmo o seguinte: nos próximos dias publicarei uma série de peças sobre cidades que esperarei vir a visitar além de Praga e Budapeste. Aproveitarei a ocasião para aprender um pouco sobre estes locais até agora por mim um pouco esquecidos no meio do meu frenesim obsessivo-compulsivo, e também para deliberar um pouco sobre as minhas expetativas em relação a esses lugares.
A rubrica de hoje, no entanto, será dedicada a uma vila portuguesa, pousada sobre a vertente sul do maciço central, esse lugar maravilhoso que é a Serra da Estrela.
Unhais da Serra
Durante o tempo que estive em Unhais da Serra, no ido ano de 2011, contabilizando cinco semanas entre verão e época de Natal, posso dizer que não houve, até essa altura, sítio em Portugal pelo qual eu estivesse tão encantado. Fui por ocasião de trabalho também, nas reparações da cobertura do H2otel, definitivamente o marco supra-sumo de uma localidade sempre reconhecida pelas propriedades medicinais das suas águas. Lembro-me, na primeira vez que lá fui, da penosa travessia que teve começo em Vendas de Galizes em direção aos sinuosos caminhos serranos, passando por Vide e iniciando uma subida lenta mas magnífica pelas montanhas, onde se consegue vislumbrar um misto de admiração pela imponente presença do relevo à distância e da influência dos agentes erosivos nele; e de preocupação pelo estado da vegetação montanhosa, arrasada num vasto espaço pelos frequentes incêndios que deflagram todos os anos por esta altura. Ver a Serra despida mas continuamente em regeneração não deixa de ser uma sensação fantástica e, sendo eu um rapaz citadino habituado apenas aos aglomerados de betão e alcatrão de tons escuros, senti-me irredutivelmente privilegiado e pequenino perante tamanho espetáculo.
A chegada a Unhais da Serra mereceu de mim alguma desconfiança: não mais era do que um conjunto de fogos velhos amontoados sobre a praça principal que contém a igreja e alguns cafés, rodeada exteriormente por algumas edificações mais recentes, como a junta de freguesia, o bar da praia fluvial, algumas moradias ou até, mais para cima, um número de restaurantes na proximidade do parque pertencente ao hotel termal. Era só isto. Uma localidade surpreendemente pequena e simples. Mal sabia eu o quanto apreciaria isso. Assim que pus os pés de fora do carro fui cumprimentado por um senhor idoso, com ar de quem toda a vida permaneceu na humildade daquele lugar. Fiquei pasmado -- em Coimbra, nem os próprios vizinhos chegam a cumprimentar-se com frequência. Mas a tempo consegui descobrir os tesouros de Unhais: se não pelo hotel, que cheguei a descobrir por dentro e que transpira luxúria e qualidade por todos os poros, então pela paisagem de cortar a respiração que me era agraciada do topo da cobertura do hotel, de onde era possível ver o planalto da Torre a Norte, e a Sul a vista permitia vislumbrar inúmeros montes a Sul, tantos quanto houvesse até à linha do horizonte, salpicados por concelhos como Fundão, Idanha-a-Nova, Oleiros e talvez até Castelo Branco. A tranquilidade era emocionante; pequenos cursos de água tomavam o seu caminho encosta abaixo, num som ambiente paradisíaco que consistia entre o cantar dos pássaros e o movimento das águas que eventualmente desembocariam na queda de água que marca o fim da praia fluvial (na foto). Uma água muito fria, é certo, mas inacreditavelmente pura. Perto do hotel há uma pequeníssima fonte, marcada em pedra, com a água mais deliciosa que alguma vez provei na vida. Ovelhas pastavam também junto ao hotel, passeando pela encosta coberta de vegetação rasteira, pedregulhos e terra cultivada, onde os sinos que levavam pendurados ao pescoço reverberavam a cada movimento. O restaurante, anexo da pensão onde dormia, não lhe ficava atrás. A comida meus amigos, oh, a comida! 5 euros por uma refeição completa com direito à oitava maravilha do mundo que era aquele doce de bolacha caseiro, uma dupla camada de mousse de chocolate polvilhada com côco ralado e, por baixo, bolacha fria empapada que não sei o que tinha de segredo mas que me sabia pela vida. Era o meu motivo de acordar todos os dias, o que tem tanto de deprimente como de saudade para mim.
Foi também em Unhais que aprendi o valor das gentes da serra: sempre dispostas à conversa e ao convívio fraterno, de uma hospitalidade invulgar e de uma simplicidade ainda maior. Muitos bons dias passei na companhia daquela gente, sobretudo dos mais idosos, que têm muitas histórias para partilhar e coisas para ensinar. Acima de tudo aprendi que a Serra da Estrela é muito mais que neve e esqui. Aprendi que a Serra é um local único, de uma beleza ímpar, onde uma pessoa consegue realmente encontrar a felicidade, seja em caminhadas por entre a natureza ainda imaculada, ou pelo calor das suas gentes, da sua cultura e da sua gastronomia. Fiquei saudoso na hora da partida. Prometi a mim mesmo que voltaria a Unhais. Pena que não será para já.
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