Foi quase sem querer, à última da hora, a tomada de decisão naquele que será o meu último ano de licenciatura, porventura uma das épocas mais importantes da minha vida, de ir lá para fora completar um semestre. Se é verdade que sempre pensei em algo do género desde que se realizaram palestras de esclarecimento acerca das deslocações em Erasmus há uns anos atrás na minha faculdade, na realidade nunca encarei essa possibilidade como algo sério. Estava acima de mim, um sonho distante de alguém que mal saiu de Portugal de repente encontrar-se a si mesmo repleto de novas silhuetas, ideias, paisagens. E, diga-se de passagem, é algo que profundamente adoro, desde que era aquele pequeno miúdo que passava as chuvosas e desconfortáveis tardes invernais na mesa da sala lá de casa a devorar os atlas que podiam muito bem ser mobília da casa com os olhos e a mente. Tantos anos a ler a mesma informação sobre as mais variadas geografias proporcionaram-me uma vontade indomável de querer ver tudo com os meus olhos. Nunca houve, porém, nem tempo, nem fundos, nem coragem. Muito menos partiu de mim a renovada decisão tomada no início deste ano.
A ideia veio da Íris, habituada a deixar-se levar pelo ímpeto e pela emoção, características tão típicas dela como a sua propensão para o planeamento antecipado, que não estabelece uma boa correlação com a impetuosidade, e acaba sempre por ser permeável à imprevisibilidade. Eu gosto disso nela; sinto que consigo corrigir esse aspeto dela e ser uma espécie de farol, ao mesmo tempo que ela incute em mim o descaramento em ir mais além. Lembrou-se subitamente da existência dessa possibilidade e da eventual reunião das condições para se ser exequível. Não tardou muito para me convencer.
Vou para Budapeste, diz-me ela, numa reação quase imediata da minha parte envolta num misto de curiosidade e confusão. Hungria...suponho que não seja mau, lá barato é, pelo menos mais do que aqui, imagino que o florim não tenha tanta força como o euro, mas Budapeste é uma metrópole gigantesca, sei lá eu da mistura de personagens que lá deve haver, ou se tem algo de interessante. Isto foi o que eu pensei na altura, Era jovem, ignorante, inculto sobre a pose magnânima de Pest e a beleza pitoresca de Buda (há 8 meses atrás mas ok).
O meu curso não oferecia essa opção, pelo que acabei por ficar pela escolha mais coerente - e da minha preferência pessoal - que recaiu sobre Praga. À histórica capital da Boémia já eu estava melhor acostumado: sempre soube da Rua Dourada, do castelo de Hradcany, do magnífico Relógio Astronómico...Praga é um tesouro medieval que resistiu às investidas das Grandes Guerras e de toda a erosão humana. Na sua maior parte, pelo menos.
Eu para Praga, ela para Budapeste. Aproveitaríamos a distância para viajarmos frequentemente para destinos relativamente próximos e do nosso interesse em particular, e as hipóteses surgiram-nos na mente de forma quase instantânea: Cracóvia, Wielizcka, Viena, Bratislava, Dresden, Leipzig, Berlim, Munique, Salzburgo, Brno, Plzen, Pecs, talvez Zagreb...o entusiasmo fez-nos mergulhar de cabeça diretamente na pré-candidatura online.
A decisão estava tomada. À ultima da hora, quase em cima do prazo, por influência da minha namorada. Mas pode muito bem ter sido a decisão mais significativa da minha vida até ao momento; o tempo o dirá, e a verdade é que ainda falta precisamente um mês para embarcar no avião que me levará para fora de Portugal. Mas, para mim, a minha experiência de Erasmus começou verdadeiramente quando cliquei no botão de confirmação de envio da pré-candidatura.
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