domingo, 30 de agosto de 2015

A Monumental Despedida - Parte II: Adeus Portugal!

Está mais próximo que nunca. Os nervos saltam à flor da pele, a pulsação sobe o seu ritmo e a ansiedade toma finalmente o controlo por completo de toda a minha capacidade emocional. Não dá para pensar noutra coisa.

Retiro o que disse. Há coisas a mais que precisam de ser pensadas. Antes de mais, a majestosa ressaca que tenho depois de uma noite tão violenta como a de ontem, cujos pormenores serão poupados. Mas adorei, do início ao fim. Foi, a todos os títulos, digno de uma festa de despedida merecedora desse nome. Daquelas em que não me cheguei a despedir de ninguém, não houve abraços nem discursos nem lamechices nem nada do género. Um puro e simples desenrolar de risos, brincadeiras e abusos pela noite fora, com final suspenso a ser retomado em Fevereiro, quando voltar. No entanto, tenho de deixar os meus sinceros agradecimentos a todos os que vieram e tornaram esta noite absolutamente memorável que irá ser contada às próximas gerações.

Foi a Íris que me acordou, pelas 9 da matina, a avisar-me da urgência de me despachar e vir a Lisboa imediatamente para confirmar tudo. Se não fosse por ela, teria me deixado dormir até o sol ir alto (obrigado Íris!). Arrumei definitivamente a mala - e penso que levo tudo de relevante, incluindo um garrafão de três litros de azeite (!!!) - e abalei para o terminal rodoviário, onde enfim me despedi do meu pai e apanhei a camioneta que me iria dar o prazer de duas horas e vinte minutos a ouvir bebés a chorarem quase ao lado, daqueles gritos mesmo agudos capazes de fazer inveja a qualquer perito em falsettos. Felizmente vim equipado com os meus fones e pus-me a relaxar enquanto ouvia uns Beatles, um Led Zeppelin, um Deep Purple. Estava nessa onda dos oldies.

Foi na chegada a Lisboa que me apercebi da importância dos táxis ao carregar, ao longo de várias centenas de metros, cerca de trinta quilos de bagagem, algum no lombo, o resto sobre rodas, invariavelmente a fazer-me lembrar o meu tempo na impermeabilização. Juro, no entanto, que é mais fácil levar um rolo de tela PVC de sessenta quilos pelo ombro do que estar a arrastar uma pilha de quinquilharias calçada abaixo. Quando chegar a Budapeste não caio na mesma esparrela e apanho um táxi em vez de optar pela dualidade Autocarro-Metro + seiscentos metros à saída até ao hostel. Esqueçam, é inexequível. Ou então sou eu que estou mal habituado. Mas a 35 graus de temperatura, como estarão amanhã na capital húngara, será difícil demover-me da decisão.

A Íris está ainda mais stressada do que eu. A dança frenética entre as ponderações e as decisões levaram-na a um excesso de zelo de tal forma que a mala dela quase rebenta pelas costuras de tanta roupa que ela leva. É que eu já estava mesmo a prever. Ah!, pois, ainda por cima ela leva duas malas e não uma. Mais a de mão. Estou para ver como ela pensa levar isso tudo. Mas tão ou mais preocupante que isso será a greve que está em vigor hoje que promete adiar o nosso vôo por um período de tempo ainda imprevisível, mas visto que a greve termina à meia noite, espero que no máximo o adiamento não seja mais que uma hora, já que o vôo está marcado para as 23:05. Estarei lá extra cedo para fazer o check-in o quanto antes e assistir ao pandemónio instalado na Portela. Não sei se terei vontade de rir ou chorar.

Olhem só, está para arrebentar. O mais impressionante? Só chega aos quinze quilos...


Ainda não me mentalizei que da próxima vez que escrever para o blog, já estarei em terras magiares, longe de qualquer referência a Portugal ou ao idioma nativo. Ainda não me entrou na cabeça, e como tal prevejo que o choque seja absurdamente maior. Sou facilmente impressionável nessas questões, e francamente, mal posso esperar por isso. Fica aqui o meu até já para vocês todos, e darei novidades quando puder. Adeus Portugal!


sábado, 29 de agosto de 2015

A Monumental Despedida - Parte I

Se há uns dias atrás me queixava de o tempo passar devagarinho, num ritmo letárgico no meio do limbo, agora os papéis inverteram-se; está tudo a ir a mil à hora, e não sei para onde me virar. Não é que seja por imposição minha, mas tenho de me mentalizar que estou, à hora em que estou a escrever esta peça, a menos de um dia de levantar âncora para Lisboa, seguindo diretamente para o aeroporto de forma a tentar o check-in o mais rapidamente possível no meio do previsível pandemónio -- ah sim! que os funcionários da Groundforce, a empresa que trata da assistência em terra (leia-se transporte de bagagens) da TAP, convocaram greve para hoje e amanhã. QUE BELO TIMING, HÃ. Não sei até que ponto esta situação me irá prejudicar, mas prefiro não massacrar a cabeça com isso agora. Estou mais descansado por ter finalmente tudo tratado, a mala está praticamente arrumada já mas a obsessão em verificar todas as gavetas por objetos úteis adicionais que possam ser incluídos na convocatória final continua, e consigo ver finalmente o meu caminho a aclarar-se um pouco mais em frente aos meus olhos relativamente ao que farei quando chegar. Quando. Agradecimentos à Groundforce. Juro por tudo que se eles me fazem falhar o check-in no Hostel que vai haver confusão da grande, nessas merdas não gosto de facilitar. No máximo, que me adiem até à manhã seguinte. O resto, dizia o JJ, são peaners.

No entanto, ainda tenho mais 24 horas em Coimbra. Em vez de desejar pela célere passagem de tempo, devia estar a aproveitar melhor os meus últimos momentos aqui, em 2015. Creio que acabarei mesmo por fazer isso: o meu pai fez questão de comprar a minha iguaria preferida -- camarão selvagem -- além de alguns mantimentos para a monumental festa de despedida logo à noite.


O que aí está é uma pequeníssima amostra. Falta todo o stock que está na garrafeira e a contribuição, em forma de bebida pesada da malta. Não vai correr bem.


O plano é simples e habitual ao que costumo fazer, mas numa escala bastante maior. Começaremos pela jantarada no Couraça, discutivelmente o meu sítio preferido em Coimbra para petiscar, seguido da debandada em geral para casa onde na ordem do dia estará o Poker, o California Kings e talvez o Drinking Uno. O resto, como dizem, é história. Fiz questão de convidar quem eu acharia que, de uma forma ou outra, se mostrasse imediatamente disponível para ir e quem posso contar quando quero. Somos quinze pessoas em perspetiva, pelo que me deixa bastante contente que, apesar de tudo, tenho quem se importe comigo (ou então é só pelo motivo da festa, mas aí pouco me importo). Acho que não podia ter escolhido melhor forma de me despedir de Coimbra: ao lado de quem me sinto confortável, com sorrisos e piadas, e uma história para mais tarde para contar. Só tenho pena de não estar cá a Iris, mas ela tem mais juízo que eu e permanece a trabalhar mesmo até ao último dia. Mais tarde farei questão de a compensar que ela também merece, e faço uma festa só com ela. Mas essa será a comemorar os melhores meses da nossa vida.

NOTA FINAL: Não sei se amanhã conseguirei ter tempo para escrever mais um post ou se só farei já estando na Hungria, mas tentarei o meu melhor para a partir de agora mudar o teor e conteúdo dos artigos para algo mais descritivo e informativo do que ver e viver aquando do meu tempo lá fora. Em suma, a partir de amanhã acabou-se a palha e começam os textos a sério e com legítimo interesse. Tratarei de partilhar onde puder de forma a conseguir atingir mais pessoas. Ficarei para sempre em vossa dívida se decidirem fazer o mesmo e partilhar a página de facebook nos vossos perfis ou em grupos pertinentes. Deixo também o mais sincero agradecimento aos que me seguem e perdem um pouco de tempo a ler cada produção minha. É por vocês e pelo feedback tão positivo que tenho recebido que continuo, sempre com mais entusiasmo! Obrigado e um abraço a todos. Vejo-vos em 2016.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Saudades de quem ainda não foi

As horas passam devagar, muito devagar. Não raras vezes dou por mim a tentar passar o tempo forçosamente num leque de atividades fúteis que vão desde atualizar o feed do Facebook descontroladamente até olhar para as paredes da sala e ver nelas a luz solar que vai dançando, com o passar das horas, com a rotação da Terra, desde a frugaz alvorada até ao ainda tardio entardecer, num período em que o calor ainda se faz sentir em todos os poros da pele. Aproveito assim para dar umas passadas largas no circuito de manutenção do Vale das Flores e para adiantar a escrita aqui no blog.

Aquilo que realmente deveria estar a ocupar o meu tempo, lamentavelmente coloquei em segundo plano, talvez numa jogada de aversão ao controlo mental da situação de espera angustiante, mas a verdade é que arrisco o tão tipicamente português "em cima do joelho" que será verdadeiramente problemático quando se trata de arrumar a mala e ver o que é necessário durante uma estadia semi-prolongada. Fica sempre no ar a sensação de que por mais voltas que dê à cabeça, acabarei irremediavelmente por levar comigo objetos que provavelmente nem chegarão a sair da mala de viagem, tal como sentirei falta de outras coisas na altura em que precisar delas, e aí verão futuramente devaneios a isso relacionados no blog, certamente em linguagem menos própria. Sou um gajo que ferve em pouca água.

Gosto de pensar em mim como uma pessoa perfeitamente adaptável a locais e situações novas sem passar por traumas psicológicos relativos às saudades do ambiente familiar. Nesse aspeto sempre fui bastante independente apesar de nunca ter passado, prolongadamente, por um caso em que não tivesse mesmo nenhum pilar ao qual me pudesse agarrar em tempos mais complicados. No entanto, haverão muitas coisas que indubitavelmente sentirei falta aquando da minha ausência em Portugal. 

Na linha de frente estará o Jimmy, companheiro sempre presente e disposto, a amizade mais sincera e verdadeira que podia desejar. Ter um cão acaba por ser uma experiência mesmo marcante: ter alguém em casa que fica em êxtase apenas por te ver, cuja ambição na vida é apenas receber afeto de quem dele cuida, acabou por me colocar muitas coisas em perspetiva. O cão de cada um é sempre o melhor do mundo, e eu penso o mesmo do meu. Não é nenhum bulldog francês, labrador chocolate, ou qualquer outro canino de alto pedigree, nem tão pouco sei ele o que é além de rafeiro, mas é o Jimmy. E neste momento assusta-me imenso ficar sem ele, mais do que qualquer outra coisa. É incrível como foi preciso ele aparecer de rompante na minha vida para ter este sentimento. Encanta-me o descaramento dele, a facilidade em como ele passa do ultra-territorial e da mania de ser mauzão para quem não conhece para, dois minutos depois de ter cheirado, andar a chiar por atenção com o brinquedo dele na boca e a cauda a abanar. Adoro-lhe a franca burrice de não entender nada do que lhe falam ou do que ele mesmo faz, como a surpreendente esperteza de conseguir desenvencilhar os mais complicados estratagemas para aquilo que lhe interessa, como abrir as gavetas para ir roer pares de meias. Ou então será a característica mais marcante dele, o de estar pendurado no parapeito da janela, que sentirei maior saudade. Lá está ele, como o Velho Fiel, a vigiar a rua e a protegê-la de outros animais invasores ou a tirar as teimas a quem por lá passa, ao mesmo tempo que ambiciona pelo retorno do meu pai. O raio do cão até já conhece o barulho que o motor do carro faz. Mal chega à rua, o danado salta que nem uma mola para chiar à janela enquanto observa, ansiosamente, para que o meu pai suba as escadas e lhe consiga dar uma recepção triunfal. Sim, é disso que terei mais saudades.


Às vezes ele pensa que é um gato.


Mas não só. Por mais estúpido que pareça, sentirei saudades da praia, da brisa marítima, do clima quente e seco. Provavelmente. Estranharei certamente, mas o hábito tão lusitano de frequentar a faixa costeira nesta altura do campeonato deixará mazelas a serem sentidas. Fortuitamente, a neve tratará de apagar estes apanágios. A comida também será importante. A maior dificuldade em conseguir produtos mediterrânicos como o azeite, o vinho, os citrinos vai se refletir na minha alimentação, e já me estou a ver a suspirar por um pargo grelhado com batatas regadas a azeite, ou um polvo à lagareiro, ou até mesmo camarão, iguaria que tanto aprecio. Terei de me contentar com a inferioridade dos goulash, dos knedlíky e dos enchidos checos e húngaros. Deveras saudável, como conseguem apurar (vou engordar tanto, foda-se).
Devido à minha opção vincada de querer dar-me com o menor número de portugueses possível, também deverei sentir falta da língua de Camões. Por agora, nego isso, porque os idiomas estrangeiros sempre foram assunto que me fascinou, e vê-los estampados no dia-a-dia é um dos meus maiores motivos de interesse, tal como praticá-los com todas as pessoas que puder falar. É o exercício máximo da cidadania internacional, e pretendo sê-lo na maior extensão possível. Mas o país de origem estará sempre no meu coração, de uma forma ou doutra. Talvez reconsidere arrumar a mala agora, e a primeira coisa que lá entrará será uma bandeira de Portugal, para que assim não sinta a necessidade de passar o meu tempo de Erasmus atrás da ilusão de que quero continuar em Coimbra.



terça-feira, 25 de agosto de 2015

Boémia e Morávia

Foi hoje, ao tratar do meu último documento (finalmente!) na DRI, que alavancou o processo de ida e, com ele, voltou a sensação de ansiedade constante, vertiginosa até, da mudança tão abrupta já ao virar da esquina. Chega a ser verdadeiramente assustador mas ainda há muito futebol pela frente nestes próximos dias e a temporização é a chave; apesar das coisas se irem tratando, como a já mencionada burocracia, a obtenção de mais fundos e acessórios essenciais ou juntar alguma roupa que me será de grande utilidade, tenho dois eventos para me ocuparem o tempo até Domingo, o mais flagrante desde logo a figurar-se na forma de trabalho. Até Sexta-Feira ainda são 24 horas de sol, suor e esforço (e como o meu corpo bem agradece!!), mas o palco principal está marcado para a minha grande festa de despedida no Sábado à noite, véspera de partida.
Durante o período de aulas tenho o hábito de juntar malta amiga no término do último dia útil semanal para se jogar umas rodadas de Poker, umas cartadas, ou pura e simplesmente beber que nem cavalos e entrar no javardanço - na segurança e conforto do meu lar, claro, para ninguém pensar que somos uns vadios brejeiros. Mas a ocasião não é por menos e espera-se uma atmosfera mais intensa no Bairro Norton de Matos; espero que não corra como o meu mítico aniversário, um descontrolo total. Mas isso são outras histórias para outras alturas.
A verdade é que é nesses momentos que percebemos a simplicidade das pessoas com quem nos damos e se fortalecem relações ao longo do tempo não porque forçosamente temos de estar com elas mas sim porque são estas, gradualmente, a procurarem a nossa companhia pelo gosto genuíno. É esta sinceridade que eu talvez mais aprecio que um amigo meu tenha, e daí querer passar os meus últimos momentos em Portugal com a malta que merece. A eles, farei um brinde. No tempo devido.


Hoje escreverei sobre os locais que quero visitar dentro da República Checa. As amostras ilustradas são parcos exemplos entre os muitos sítios que provavelmente deverei marcar presença, mas admito ignorância sobre eventuais pérolas perdidas entre a Boémia e a Morávia:



Plzen

Além de ser a Capital Europeia da Cultura deste ano, galhardete partilhado com a cidade belga de Mons, Plzen é sobejamente conhecida por uma particularidade. Sim, todos sabemos qual é. Apesar da catedral gótica, a Câmara Municipal renascentista e da presença da segunda maior sinagoga da Europa (atrás de Budapeste), Plzen vale a pena pela cerveja. Algumas das melhores cervejas do mundo, como a Pilsner Urquell e a Gambrinus, são produzidas aqui mesmo. O marco turístico mais atraente será mesmo a visita guiada pela Plzensky Prazdroj, onde os visitantes aprendem mais sobre a história da cerveja. Sou muito mais apreciador de vinho do que de cerveja, francamente, mas já dizia o outro que em Roma sê romano!

E vocês não fazem ideia de quão barata é a cerveja em terras checas...


Brno


Sendo a capital da Morávia, não seria de espantar verificar o que Brno tem para oferecer: inúmeros testemunhos medievais, repartidos entre castelos, fortalezas e catedrais, ou a maravilha natural que é o Carso da Morávia, uma área cravada de grutas e gargantas capazes de colocar em êxtase qualquer espeleólogo ou geólogo. O circuito mundial de Moto GP também aqui passa (foi daí que, em criança, ouvi pela primeira vez falar em Brno) mas infelizmente a minha chegada não coincide, por apenas duas semanas, com a realização do evento no circuito Masaryk. Brno tem também um ponto arquitetónico intrigante nas suas fileiras: a Villa Tugendhat, reconhecida pela UNESCO como Património Mundial. Há tanto para ver aqui de tal forma que não deverei passar por Brno apenas uma vez.




domingo, 23 de agosto de 2015

Terras magiares

A apenas uma semana da minha partida, devo confessar a minha estranheza perante a minha apatia pelo evento, talvez provocado pelo meu subconsciente numa tentativa de não sobrecarregar a cabecinha com as preocupações inerentes à viagem de forma a ter tudo preparado. Tenho ainda de decidir o que levo na minha mala, ou o que vale a pena levar, a respetiva quantidade e deliberar sobre a sua utilidade. Obrigatória será a inclusão de roupa quente, material de higiene, louça, a mixórdia de fios e carregadores que acompanham o telemóvel e o portátil, algumas garrafas e enlatados e até um número de livros para me entreter. Deverei fazer justiça ao Kafka e ler outra coisa que não seja A Metamorfose, mas provavelmente será desta que tentarei ler, do início ao fim, A Montanha Mágica do Thomas Mann. Talvez leve algo do Saramago se quiser matar saudades da língua-mãe.

Tenho andado também a pensar, como tinha dito na mensagem anterior, nos sítios que pretenderei visitar. Começarei pelos lugares húngaros atingíveis a partir de Budapeste:


Esztergom

O mais parecido que pode haver na região com uma cidade medieval, Esztergom foi a capital da Hungria na Idade Média, um dos meus períodos preferidos enquanto entusiasta da História Mundial, e encontra-se repleta de um vasto património religioso proveniente dessa época, repartido por entre a sua Basílica, vários museus e igrejas, tudo embelezado por uma vista de cortar a respiração, no topo da colina que domina a pequena, pitoresca cidade. Não é algo para se perder de amores, mas sem dúvida merece que gaste uns poucos euros de transporte, já que fica apenas a escassos quilómetros a norte da Paris de Leste.


Só pela vista magnífica já merece a curta viagem de ida.


Pécs

Pécs é o equivalente de Coimbra em terras magiares, mas sem dúvida com potencial de ser muito mais emocionante; a sua posição central fez com que fosse, ao longo dos tempos, uma cidade pluricultural, um encontro de todo o género de povos diferentes, divididos sobretudo entre os católicos romanos magiares e croatas, os ortodoxos sérvios e os islâmicos bósnios. de tal forma que a cidade é reconhecida como a "Cidade sem fronteiras" e ganhou inclusive vários prémios de paz por conseguir uma tolerância e espírito de inclusão tão forte relativamente às minorias. Não é de espantar, então, que seja também um centro universitário de reconhecido valor. Este fator, coadjuvado com as inúmeras igrejas, mesquitas, museus e teatros de relevância, torna Pécs um lugar muito apetecível para a minha sede de cultura.


Balatonfured

Tenho uma enorme curiosidade em relação ao Lago Balaton, aquele que é considerado o Mar Húngaro, e sem dúvida o contraste extremo à paisagem que se verifica no leste do país, dominado pela Puszta, a última grande estepe europeia, que hoje é utilizada para uma intensa agricultura. Balaton, por seu lado, é um corpo de água gigantesco no meio de um país sem faixa costeira (algo que seguramente me fará confusão por ainda não ter visitado nenhuma nação desse género) e Balatonfured é um dos seus resorts mais populares pela sua localização, a norte do lago e logo mais próximo de Budapeste, e pelo seu desenvolvimento desde cedo como destino turístico balnear. Certamente quererei, ainda em Setembro, verificar a reputação desta cidade e experimentar não apenas a sua praia como ver a caverna que têm nas redondezas e, sobretudo, daruma olhada pelo antigo Bairro Grego que hoje é um quarteirão de bares, pubs e restaurantes famosos pela qualidade do vinho. Intrigante, no mínimo. 

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A Serra da Estrela

À medida que os longos dias de espera se vão encurtando no ermo abandonado que é a cidade de Coimbra durante a época balnear, vai crescendo a ansiedade por se tratar de algo a que nunca outrora tive direito na vida, mas também a impaciência por não saber o que fazer aos minutos que ainda restam, um lento deslizar dos grãos na ampulheta provocando agitação interior quase claustrofóbica na minha mente. Torna-se fulcral a distração. O meu emprego tem realizado um desempenho horrível nesse aspeto visto que agora estou lá um pouco mais solitário, mas tanto os meus leais amigos como a minha sempre insistente namorada ocupam, a espaços, a minha capacidade de atenção. As outras necessidades urgentes, como a obtenção do cartão ISIC (algo que fiz na agência Top Atlântico na Sá da Bandeira, de forma imediata e a chutar papel que até doeu) como a compra inevitável de um telemóvel desbloqueado, também auxiliaram a escavação de segundos preciosos. É como um silêncio gritante. É nestas alturas que sinto saudades da minha terra e da algazarra lá instalada por esta altura do ano.

Assim, propus a mim mesmo o seguinte: nos próximos dias publicarei uma série de peças sobre cidades que esperarei vir a visitar além de Praga e Budapeste. Aproveitarei a ocasião para aprender um pouco sobre estes locais até agora por mim um pouco esquecidos no meio do meu frenesim obsessivo-compulsivo, e também para deliberar um pouco sobre as minhas expetativas em relação a esses lugares.

A rubrica de hoje, no entanto, será dedicada a uma vila portuguesa, pousada sobre a vertente sul do maciço central, esse lugar maravilhoso que é a Serra da Estrela.


Unhais da Serra



Durante o tempo que estive em Unhais da Serra, no ido ano de 2011, contabilizando cinco semanas entre verão e época de Natal, posso dizer que não houve, até essa altura, sítio em Portugal pelo qual eu estivesse tão encantado. Fui por ocasião de trabalho também, nas reparações da cobertura do H2otel, definitivamente o marco supra-sumo de uma localidade sempre reconhecida pelas propriedades medicinais das suas águas. Lembro-me, na primeira vez que lá fui, da penosa travessia que teve começo em Vendas de Galizes em direção aos sinuosos caminhos serranos, passando por Vide e iniciando uma subida lenta mas magnífica pelas montanhas, onde se consegue vislumbrar um misto de admiração pela imponente presença do relevo à distância e da influência dos agentes erosivos nele; e de preocupação pelo estado da vegetação montanhosa, arrasada num vasto espaço pelos frequentes incêndios que deflagram todos os anos por esta altura. Ver a Serra despida mas continuamente em regeneração não deixa de ser uma sensação fantástica e, sendo eu um rapaz citadino habituado apenas aos aglomerados de betão e alcatrão de tons escuros, senti-me irredutivelmente privilegiado e pequenino perante tamanho espetáculo. 

A chegada a Unhais da Serra mereceu de mim alguma desconfiança: não mais era do que um conjunto de fogos velhos amontoados sobre a praça principal que contém a igreja e alguns cafés, rodeada exteriormente por algumas edificações mais recentes, como a junta de freguesia, o bar da praia fluvial, algumas moradias ou até, mais para cima, um número de restaurantes na proximidade do parque pertencente ao hotel termal. Era só isto. Uma localidade surpreendemente pequena e simples. Mal sabia eu o quanto apreciaria isso. Assim que pus os pés de fora do carro fui cumprimentado por um senhor idoso, com ar de quem toda a vida permaneceu na humildade daquele lugar. Fiquei pasmado -- em Coimbra, nem os próprios vizinhos chegam a cumprimentar-se com frequência. Mas a tempo consegui descobrir os tesouros de Unhais: se não pelo hotel, que cheguei a descobrir por dentro e que transpira luxúria e qualidade por todos os poros, então pela paisagem de cortar a respiração que me era agraciada do topo da cobertura do hotel, de onde era possível ver o planalto da Torre a Norte, e a Sul a vista permitia vislumbrar inúmeros montes a Sul, tantos quanto houvesse até à linha do horizonte, salpicados por concelhos como Fundão, Idanha-a-Nova, Oleiros e talvez até Castelo Branco. A tranquilidade era emocionante; pequenos cursos de água tomavam o seu caminho encosta abaixo, num som ambiente paradisíaco que consistia entre o cantar dos pássaros e o movimento das águas que eventualmente desembocariam na queda de água que marca o fim da praia fluvial (na foto). Uma água muito fria, é certo, mas inacreditavelmente pura. Perto do hotel há uma pequeníssima fonte, marcada em pedra, com a água mais deliciosa que alguma vez provei na vida. Ovelhas pastavam também junto ao hotel, passeando pela encosta coberta de vegetação rasteira, pedregulhos e terra cultivada, onde os sinos que levavam pendurados ao pescoço reverberavam a cada movimento. O restaurante, anexo da pensão onde dormia, não lhe ficava atrás. A comida meus amigos, oh, a comida! 5 euros por uma refeição completa com direito à oitava maravilha do mundo que era aquele doce de bolacha caseiro, uma dupla camada de mousse de chocolate polvilhada com côco ralado e, por baixo, bolacha fria empapada que não sei o que tinha de segredo mas que me sabia pela vida. Era o meu motivo de acordar todos os dias, o que tem tanto de deprimente como de saudade para mim.

Foi também em Unhais que aprendi o valor das gentes da serra: sempre dispostas à conversa e ao convívio fraterno, de uma hospitalidade invulgar e de uma simplicidade ainda maior. Muitos bons dias passei na companhia daquela gente, sobretudo dos mais idosos, que têm muitas histórias para partilhar e coisas para ensinar. Acima de tudo aprendi que a Serra da Estrela é muito mais que neve e esqui. Aprendi que a Serra é um local único, de uma beleza ímpar, onde uma pessoa consegue realmente encontrar a felicidade, seja em caminhadas por entre a natureza ainda imaculada, ou pelo calor das suas gentes, da sua cultura e da sua gastronomia. Fiquei saudoso na hora da partida. Prometi a mim mesmo que voltaria a Unhais. Pena que não será para já.

domingo, 16 de agosto de 2015

À procura do hostel perfeito

Ontem a Íris relembrou-me da necessidade urgente de reservar um quarto de hostel o mais antecipadamente possível para quando chegássemos a Budapeste. Posso dizer que passei o santo dia inteiro numa procura frenética, passeando entre booking.com e TripAdvisor, à procura de um alojamento temporário que reunisse as condições adequadas a um preco acessível. Durante horas a sorte não foi muita: muitos dos edifícios ou quartos apresentavam condições paupérrimas que eram confirmadas pelo feedback de clientes que por lá passavam. A 10€ por noite e por pessoa, não seria de admirar muito. Mas chegava a ser engraçado. Uma das residências, localizado no passeio do Danúbio, tinha quartos mais pequenos que a minha despensa, com mesa de cabeceira, uma estante para toalhas, e uma cama estreita junta à janela, num espaço claustrofóbico que não permitiria colocar malas de viagem de forma nenhuma. Outra, perto da praça Oktogon, tinha, de acordo com os clientes, o espaço muito sujo e mal preservado, embora as fotos mostrassem quartos espaçosos, humildes mas funcionais. A casa de banho, partilhada, seria no piso inferior aos quartos, com um nível de privacidade ínfimo. O lobby pelo menos era de um visual mais ou menos agradável, um pouco diferente do habitual. Outra opção considerada, mesmo no centro da confusão da vida noturna de Budapeste, era mais uma casa de família que qualquer outra coisa, com um ar agradável, mas levantou desde logo muitas suspeitas devido à dualidade de quartos que eram dispostas na galeria. Preferimos não arriscar. Finalmente, havia a opção inicial da Íris; perto da Sinagoga, uma pequena residencial que pelas fotos parecia ter algum cuidado e o mínimo de condições, e isto pelo preço simbólico de... 40 euros para duas noites num quarto duplo. Era um achado. Até eu reparar nos comentários de feedback. Inúmeras queixas e denúncias de que os quartos eram uma nojeira absoluta, diferentes do que eram mostrados nas fotografias, sem condições dignas de registo, a juntar ao atendimento horrível (não possui recepção e houve mesmo pessoal que teve de esperar horas na rua à espera que chegasse alguém que os atendesse). Fiz logo a minha cara de foda-seeeeeeeee e comecei a ficar desesperado perante a falta de opções disponíveis que não ficasse acima dos 60€ no total.


A bênção estaria por chegar: a Íris aconselhou-me que criasse mesmo uma conta no booking para ver o que seriam aquelas "ofertas secretas" que tanto listavam nalguns locais. Pff, uma jogada de marketing, pensava eu. Pensei mal. Um hostel muito popular entre a estudantada estrangeira, aliás, a recomendada pela universidade em que a Íris estará, tinha um desconto significativo caso aceitasse a oferta secreta, que consistia numa pré-reserva já com tudo pago. A fachada é de um prédio bastante antigo mas, por dentro, a decoração era moderna, o ambiente muito juvenil, o staff muito simpático e prestável, e os quartos bastante satisfatórios. Pela módica quantia de 44€. Aproveitei para reservar um quarto duplo logo na altura.



Eles até têm uma esplanada virada para um jardim dentro do quarteirão. Não é impressionante, mas está bem arranjadinho. Tal como o site deles, que está bem montado e de nível profissional.



Este hostel situa-se em Ferencváros, um bairro de transição entre o centro e a periferia conhecido talvez mais pelo seu clube de futebol, o mais bem-sucedido da Hungria. O estádio recém-construído, o Groupama Arena, fica no fundo da avenida onde está localizado a residência. Vou começar a apanhar o hábito de comprar os cachecóis dos clubes das cidades por onde passo - preferia as camisolas, mas não há dinheiro para isso. Talvez vá lá ver um jogo ou dois quando assentar. Mas antes, terei que tratar de inúmeros detalhes aquando da minha chegada, e um deles será carregar as malas feito escravo desde o aeroporto até Ferencváros e fazer espera até ao check-in às 14 horas. Mas, como já tinha dito, os funcionários do hostel são muito prestáveis e fortemente inclinados para o público-alvo do meu género -- ofereceram um panfleto online com inúmeros descontos em várias atrações parceiras deles, e advertiram fortemente para NÃO trocar euros por forintos no aeroporto, porque as agências, apesar de pertencerem a bancos oficiais, aproveitam-se dos turistas nos sítios propícios para tal. Sei que o câmbio corrente é de 1€ para 310HUF. Mas desconhecia as taxas. Assim evito ser enganado e ficar sem dinheiro para o cachecol do Ferencváros. Graças à malta porreira do Budapest Budget Hostel.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Aí está ela!




Demorou, mas chegou. E a julgar pela data do documento, creio ter chegado apenas por insistência minha aquando do envio por e-mail, e vejam só - não levou nem dois dias a ser colocado na minha caixa de correio. A presença da Letter of Admission traz-me finalmente um pouco de alívio, mas também despoleta outros problemas que tenho ainda de resolver: enviar isto para a DRI (nem pensem que vou digitalizar aquilo tudo, vou lá e eles que tratem disso, I don't give a fuck); fazer um cartão ISIC para ver se me fazem descontos nos passes de um mês em Budapeste e semestral em Praga, além das viagens que irei fazer constantemente entre a República Checa, Eslováquia, Áustria, Alemanha, Polónia e Hungria; e, o mais importante de tudo, tratar de pequenos detalhes descritos no documento e que me impedem de ficar descansado por um segundo que seja.

Vá, ao menos o jogo de cama eles fornecem na residência de Hostivar. Tudo o resto tenho eu que levar. Isto não será novidade para os leitores que já vivem ou viveram em residências de estudantes, mas para mim é um mundo de novo de preparativos antecipados para uma vida partilhada para a qual anseio mas nem imagino a brochada que daí virá. Falei com o meu pai acerca de algumas coisas essenciais: toalhas de banho e de cozinha, roupa quente (que ainda creio ser um assunto demasiado batido mas depois quando provar os graus negativos na cidade dos cem pináculos vou desejar que me enforquem pela minha insolência), papel higiénico, os sabões, pratos, talheres e tachos, cabo de rede, aprender a mexer no raio das máquinas de lavar à roupa deles. Em checo. Pequenos detalhes que facilmente serão resolvidos após um dia ou dois, mas a minha principal preocupação retém-se na obtenção de um certificado válido para tirar o passe, que desconheço se o ISIC serve para tal ou tenha mesmo de ser o cartão carimbado da Univerzita Karlova; e no viabilidade do sistema bancário ao qual não faço a absoluta mínima ideia de como funciona receber euros cá, em que modalidade, e em que condições. A última coisa que quero é não ter acesso a fundos que me serão vitais nestes primeiros dias para pagar tudo e mais alguma coisa, desde os passes semestrais, os dias de alojamento do mês de setembro, eventuais bens de primeira necessidade e coisas triviais como uma grade de Pilsner ou de Gambrinus fresquinha para enviar à malta aqui em Portugal, que eles merecem. Sim, leitor, você pode ser da malta também se quiser! 

De resto, o information sheet vinha cravado de avisos os quais eu já tinha conhecimento prévio: não se pode fumar dentro dos prédios (o que não é problema para mim), não se pode fazer barulho na residência entre as dez da noite (difícil, esta) e as sete da manhã, terei que aguentar filas e pedir chaves em checo, um mapa do sistema de transportes de Praga e respetivo procedimento entre aeroporto e residência/centro da cidade que já memorizei de alto a baixo há meses; existe ainda a indefinição da inscrição na faculdade e da mudança das cadeiras que terei de efetuar cujas datas desconheço e, pior, a atribuição da bolsa que segundo o contrato deverá chegar até ao fim do mês de Agosto mas as fontes gerais falam na posterior confirmação do documento de chegada. Se assim for, terei dois meses muito apertados em Praga financeiramente, e logo os mais dispendiosos. 

Por agora, vou cuidar do que tenho para resolver ainda em Portugal. Uma coisa de cada vez. Provavelmente tenho de começar já a pensar no colega de quarto que quererei ter - ah sim, porque é-me preferível procurar o tipo de pessoa compatível comigo do que deixar ao deus do acaso e calhar-me alguém com quem não tenha nada em comum com os meus gostos exigentes, ou ser uma pessoa complicada, com mau feitio ou desleixado, ou o pior de tudo, um português. Prouvera eu encontrar um tipo porreiro com quem me dê bem, e nisso venero o Facebook por me facilitar a tarefa. Hora de pôr mãos à obra.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Desabafos de ignorância

Gosto imenso de números redondos. E hoje faltam 20 dias para o começo da maior aventura da minha vida até hoje. Tenho andado demasiado tempo preocupado com o que falta resolver do que com o que aí vem de bom, nomeadamente a prolongada ausência da Letter of Admission que supostamente seria enviada pela Karlova Univerzita «nos fins de julho, inícios de agosto» - situação para a qual enviei e-mail hoje para eles solicitando informação acerca do assunto - tal como a necessidade inevitável de ter de adquirir um telemóvel novo (mais por pressão da Iris do que por outra coisa qualquer) que me permita usar cartões e/ou tarifários que porventura houverem por lá. Não me informei muito sobre isso, mas para mim, que tenho presentemente um tarifário mensal de 5€ com chamadas e mensagens à pala para outros clientes Vodafone, devido a uma promoção universitária que fizeram, imaginem, em 2010 e que ainda continua vigente por algum motivo miraculoso, era-me imensamente desagradável ter de abdicar de um plano de custos tão reduzido apenas por ficar uns meses no estrangeiro. Assim, tomei a escolha sádica de pagar dois tarifários ao mesmo tempo: o de Portugal para não ficar sem ele, e aquele que vier a ter de forma a ter o máximo de utilização de dados wireless possível sempre que precisar - e sei bem que irei sentir falta de cada byte disponível.



Quer queira quer não, este será o meu melhor amigo por terras magiares e checas.



Mas há mais: o meu plano de estudos ainda por resolver devido a e-mails pendentes e a soluções ainda não descobertas que da minha parte queria verem ser aplicadas da forma mais eficiente possível mas que pelos vistos o lado que me devia estar a prestar apoio dificulta-me grandemente a tarefa ao impôr obstáculos ou simplesmente premindo o carimbo negativo; ainda não sei se posso fazer as cadeiras que quero, nem se são válidas, nem merda nenhuma. Fica tudo para a última da hora, em Setembro. Queria ver se as minhas aulas começassem logo no início do mês, como à Íris. Estava bem fodido. As coisas resolvem-se, mas o estado de indefinição enerva-me.

Também desconheço literalmente o sistema bancário nos países da UE nos quais não circula o Euro. Não faço ideia se no caso de me fazerem uma transferência internacional o dinheiro me chegue em Euros e tenha de levantar e cambiar ou se a taxa é logo aplicada e me fica disponível na moeda local, ou se há outro procedimento qualquer visto que há um limite de montante cambial diário. Agradecia aos meus leitores que se souberem a solução para este enigma deixe o comentário a explicar de forma a que a minha cabecinha de vento entenda.

Por último, a questão do alojamento inicial. Por muito que eu goste de ser aventureiro à brava e pôr-me a fazer as coisas à campeão, admito que essa vontade se espairece quando comigo estão cargas de bagagem dignas de serem levadas por uma besta, e reservar um motel barato no centro da cidade que ofereça condições minimamente satisfatórias (vá, pelo menos água quente, paredes firmes e sem bicharada no soalho de madeira) vai ser um desafio. Sobretudo porque não confio muito nos motores de pesquisa online para realizar reservas antecipadas. Mas isto sou eu que sou leigo. Mas terá que ser já que no dia seguinte à chegada terei que deambular pelas útcas de Budapeste à procura de um quarto decente para a Iris chamar de lar durante os próximos tempos e para eu repousar o rabo durante três semanas.

Vou tão preparado para umas coisas, mas, para outras sinto-me um puto perdido na feira à espera que alguém lhe leve algodão doce para parar de chorar.

domingo, 9 de agosto de 2015

O dilema da praia

À medida que a contagem decrescente para a partida no dia 30 de Agosto vai vendo os seus dígitos progressivamente reduzindo, tento distrair a minha mente ocupando-a com outras atividades. A Íris fez-me vir passar o fim de semana com ela a Lisboa, numa espécie de light training antecedendo as nossas três semanas em Budapeste. Supunha eu.

Ontem de manhã passámos pelo Pingo Doce de Picoas, já vestidos e equipados no estilo de turista pelo qual nutro menor consideração: aquele que vai exclusivamente à praia. É um pouco irónico que eu, sendo algarvio de origem, tenha tanta aversão à praia. Nunca entendi o fascínio em perder horas inteiras a torrar ao sol, fazendo rigorosamente nada. Ok certo, pode ser para relaxar, mas a minha ideia de tranquilidade e descanso não é pousar o corpo sob areia irregular, com os raios de sol intensos a bater-me na cabeça e sendo ocasionalmente importunado por miúdos reguilas a calcar areia para cima de mim porque a ideia de correr para eles é pisotear o máximo possível de sedimentos na berma das toalhas alheias ou, no pior dos casos mas compreensivelmente inevitável, aturar o choro de bebés e crianças pequenas pela mais ínfima razão. Espetáculo, pá. O único motivo pelo qual ainda consigo considerar a praia como um local de lazer será pelos desportos aquáticos e pela boa braçada que alguém pode dar dentro de água enquanto se deixa levar pela energia das ondas. Mas só na minha santa terrinha, onde a água é mais quentinha e resguardada da influência atmosférica proveniente do Atlântico; na restante faixa costeira do país, a água revoltada e fria, em conjunto com a tão agradável Nortada, proporciona um relaxante choque térmico que nos faz perder o ar durante vários segundos. Terapêutico!


Isto sim é uma praia a sério! Não há nada melhor que o meu Sotavento.


Tanto no Pingo Doce como na Praça de Espanha, onde iríamos apanhar o autocarro que nos levasse à Costa da Caparica (e mais tarde também no Metro, como verificaríamos), a sensação de pluriculturalismo era evidente: a invasão de nórdicos que podiam perfeitamente ser provenientes de Jotunheim, ou não parecessem eles gigantes (algo que terei de me habituar em Praga, pelos vistos); germânicos pálidos de mochila às costas sem saber bem o que fazem ou onde estão mas também a não se importar com isso; a horda de franceses, jovens e idosos, perigosamente vermelhos em tudo o que neles era pele e sempre dispostos em grupos de dimensão familiar; a legião de castelhanos, no seu típico metralhar em alta voz, discutindo com o compatriota a recente subida de cotação grega nas bolsas europeias. 

Retiro, aliás, o que disse sobre a mixórdia de culturas: aqui, a cultura resume-se ao sun-seeking, independentemente do idioma ou da nacionalidade. Não me interpretem mal: gosto imenso do convívio com outros povos e a presença destes traduz-se num enorme benefício económico para o comércio visado e gera um enorme fluxo de bens e de positivismo, mas é estranho sentir-me um estrangeiro no meu próprio país, sobretudo quando são os próprios estrangeiros a alienar os locais e se encolhem na sua bolha turística de conforto onde tudo é perfeito e tudo é caro. Consigo contar pela ponta dos dedos o número de estrangeiros que me interpelaram pela rua nem que seja para me perguntar onde é algo. Deve ser por eu ser feio. Não consigo deixar de pensar que quando estiver lá fora me irei pôr à conversa com o maior número possível de locais; é fascinante imaginar o número de histórias enriquecedoras e variadas, de expetativas e de ideologias que as pessoas que vêm de fundos diferentes do nosso têm para me agraciar. Essa será porventura, para mim, a melhor experiência que poderei ter em Erasmus.

Por mais estranho que pareça, as espécies que habitualmente mais se encontram na Costa da Caparica são as tias e os mitras da Margem Sul. Umas passeiam as mamas repletas de silicone cobertas por biquinis ultra-modernos fluorescentes na tentativa de alguém reparar o quão bronzeadas estão e o tão oxigenado/pintado de vermelho forte o cabelo está; já os adolescentes com hormonas ganharam a mania de que são DJ's e colocam os mais recentes hits de kizomba e house nos telemóveis em altifalante, tal Meo Sudoeste; os machos com caps da NY na cabeça, colares ao pescoço, tronco seco e musculado e pernas finas a jogar ao meio à beira-mar, as fêmeas com cabelo pendurado à cebola, seguindo-se umas às outras empinando o rabo ao estilo pavão a molhar os pezinhos onde as ondas rebentam numa dança frequente entre a toalha e a água. Enquanto isso, sou apanhado no meio disto tudo a ler o jornal na sombra do meu chapéu, que aos sábados aparentemente vem com suplementos cor-de-rosa repletos de informação útil acerca de que vestidos as celebridades levaram para a noite na Praia da Rocha. Como cereja no topo do bolo, a água fria estava infestada de alforrecas, que entretanto deram à costa e desidrataram, deixando ao seu largo um cemitério de um dos seres vivos que mais impressão me dá. Saí da Caparica às 16h, cinco horas depois de ter chegado. E já foi muito tempo que lá passei. Isto da praia não é para mim. Hoje vou para os jardins da Fundação Gulbenkian alimentar patos à beira do lago. Aí, ler um livro à sombra de uma árvore é para mim uma ideia muito melhor. Certamente irei aproveitar melhor.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Bolsa de Erasmus

Uma das maiores preocupações para quem vai em Erasmus é, invariavelmente, o orçamento que tem em mão. Quem me dera a mim ser exceção à regra.

O meu emprego de verão, sem dúvida invulgar entre os estudantes da minha idade, vai proporcionar-me algum desafogo temporário neste aspeto, visto que pela parte da instituição que atribui as bolsas a vontade é pouca: o valor da bolsa é calculado supostamente pelo custo do nível de vida do país de destino (algo que comprovei não ser verdade - a Itália e a República Checa estão inseridos no mesmo escalão de atribuição de 250€ mensais, se bem que a península itálica pratique preços elevadíssimos em quase tudo em relação aos boémios, em que só a renda na baixa de Praga possa ser considerada algo exorbitante), e este valor estendia-se pelo período de quatro meses, pago em duas prestações; uma na confirmação do envio do documento à chegada da universidade de destino, e o restante já de volta a Portugal, com a devida documentação confirmada. Para este ano, decidiram retirar um mês da equação de forma a garantir que todos tenham bolsa. Quando me disseram isto na DRI, há pouco mais de uma semana, fiquei imediatamente revoltado.


Felizmente, tenho um grande auto-controlo nestas situações. Às vezes.



A minha raiva dissipou-se quando nesse preciso momento - e juro que não vos estou a aldrabar como um bandido sem escrúpulos - entra um rapaz visivelmente abatido e irritado, com vontade de queimar a DRI ao chão mas a conseguir conter-se muito a esforço, interrompendo a minha vez de estar sentado na cadeira a chorar e pergunta pela segunda tranche da bolsa, a ver se tanto a instituição Erasmus como a DRI lhe possam dar alguma pista do paradeiro dos tão necessitados fundos. Esta segunda tranche é relativa, imaginem, ao primeiro semestre, que terminou há meio ano. E do dinheiro, ainda nada à vista. A resposta foi célere e peremptória: espere pela confirmação de envio do montante. O pobre moço saiu chamuscado, sem antes dar uma descasca sobre a forma miserável como a situação estava a ser lidada.

Foi nesse momento que soltei um grande foda-se em jeito de alívio, ao ler o contrato que estipulava que eu receberia 100% do valor total da bolsa até 30 dias após a assinatura do presente documento (se bem que estou em dúvida se será este ou o documento de chegada, mas sei bem o que li). Recebo 750€ em vez de 1000€ de bolsa, é certo, mas ao menos recebo-o todinho quando mais preciso dele e sem este tipo de macaquices. Assim o espero. Oxalá aquele rapaz não seja eu também para o ano que vem.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Porque o inverno é melhor

Não foi por acaso que escolhi ir de Erasmus no semestre considerado o menos apetecível. A Europa Central pode não ser um destino muito apreciado nos meses de frio, mas o que algumas pessoas não sabem é que o clima temperado continental, apesar de mais quente no Verão, apresenta também valores de precipitação mais elevados nesta altura do ano. Imaginem o chato que é um gajo querer curtir um dia de calor, mas surpresa surpresa! o céu está nublado e com vontade de despejar água por aí abaixo. Não é a forma mais agradável de se ver os seus planos estragados, e isso terá repercussões óbvias no humor mais tarde.

Outro dos motivos prende-se com o fluxo turístico presente em Praga. Ir no semestre de inverno equivale a escapar, ao estilo de Neo, às legiões de reformados com calções e sandálias, armados com a sua Canon, prontos a captarem tudo com os olhos e igualmente hábeis na não absorção da substância e da essência de um lugar. Esta é a malta do lazer, especializada na arte de gastar dinheiro - e como a economia local se deleita com isso e patrocina esse fervor ao máximo! - que, não sabendo procurar muito além da óbvia oferta das agências turísticas mainstream, não importa muito nem ao habitante local, que se sente posto de lado no seu próprio território que prefere quem tem maior poder de compra, nem ao estudante de Erasmus, a sua concorrência direta na ocupação do espaço turístico, que vê a sua experiência genuína ser diluída num oceano de comercialização do património, este efémero rio Styx que mais depressa retira alma à cidade por lhe conferir falta de personalidade e de identidade.



Um bom exemplo: a simpática preia-mar de gente à espera da badalada da Prazsky Orloj que ocorre uma vez em cada hora...



Escusado será mencionar que se torna difícil apreciar o que quer que seja. Ir no primeiro semestre significa ter mais espaço, uma abertura maior por parte dos locais, menos saturados pela irritação turística, e, sobretudo, preços mais baixos praticados pela maioria dos serviços, que na falta de carteiras recheadas para tentar enganar, resumem aos preços normais. Tudo isto que acabei de mencionar é verificável também em Portugal, especialmente na minha santa terrinha, onde se nota logo a diferença sazonal. Os meses invernais são frios e mortos, é certo, mas honestos e verdadeiros. Assim o prefiro.

A minha maior razão será, porventura, a neve. Vi neve autêntica uma vez na vida, aos três anos de idade, altura demasiado tenra para ter gostado de algo ou sequer me lembrar, e neve fabricada aos dezasseis, quando fui fazer figuras tristes em cima de uma prancha de snowboard na estância de esqui da Torre. A sensação que deslizar sobre a encosta me proporcionou fez com que aquele fosse facilmente o meu melhor dia de sempre. Quero repetir isso, sem dúvida nenhuma. E despertar o meu profundo desejo de ver e sentir neve, perpetuado pela minha infância seca e quente.

domingo, 2 de agosto de 2015

Ânsia de viver

Não sei se as outras pessoas que já foram de Erasmus passaram pelo mesmo, mas a espera angustiante que temos de aguentar infligiu-me uma síndrome psicótica, obsessiva até, de procurar saber tudo e mais alguma coisa sobre os sítios pelos quais passarei. Esse espírito curioso amplifica-se na minha essência de geógrafo puro: já antes tinha mencionado o tempo de infância passado a aprender tudo sobre a influência humana no território, mas quando o conhecimento é apenas superficial, se surge um motivo para aprofundar o olhar no iceberg, o vício é inevitável.

Quando dei por mim, ainda em Janeiro e logo depois de ter confirmado a pré-candidatura, já estava na FNAC a gastar horas de vida a mergulhar-me em manuais, guias e almanaques sobre Praga e Budapeste principalmente, mas se encontrasse blocos maciços sobre a Europa Central, qualquer pedaço de informação, desde restaurantes, pontos de interesse ou a fraudulência dos taxistas, tudo era aproveitado, numa indelével sensação de prazer, adrenalina até. A última vez que me tinha sentido assim foi no meu primeiro dia de aulas na Universidade de Coimbra, no Colégio de São Jerónimo. Apesar de ser basicamente coimbrinha quase desde nascença, a Alta constituía território desbravado para mim. Chego a admitir a vergonha de ter recorrido ao Google Earth para descobrir o caminho mais próximo a pé desde onde vivo até à Faculdade de Letras, cujo paradeiro eu desconhecia. Recordo que vivo a cinco minutos de carro da Universidade; ainda assim, passei o tempo todo a sul do Cidral. Aparentemente a Solum e o Vale das Flores são um mundo completamente à parte.

O devoro não se limitava aos livros. Cheguei a fazer diretas pregado ao portátil a pesquisar por complementos ao que eu já sabia online, desde depoimentos de pessoas que já passaram por lá, a fóruns especializados no assunto, a artigos da Wikipédia (que ao contrário do que as pessoas pensam, consegue ser bastante fidedigna hoje em dia), até chegar ao Google Earth e finalmente ao Google Street View para eu ter um cheirinho da paisagem que iria desfrutar nos próximos tempos. 

E acreditem que se passa um bom tempo didático a usar esta ferramenta preciosa. Para alguém como eu, esta é a melhor invenção desde a guitarra elétrica.



A Iris fazia um pouco o mesmo, claro, mas eu chego a ser absolutamente louco ao ponto de me consumir o pensamento por inteiro durante dias a fio e de me tirar o sono devido à expetativa que criei para mim mesmo. Provavelmente serei o único a chegar a este nível de insanidade por causa disto, mas não tenho o hábito de viajar para o estrangeiro, e isso aliado à vontade de querer ver tudo pelos meus olhos, de praticar o meu inglês até à exaustão, à ânsia de ser um cidadão do Mundo - um Gonçalo Cadilhe urbano quase - transformaram-me nestes últimos meses num vulcão peleano à espera que a rolha de emoções se solte devido à pressão talvez injustificada da impaciência crescente que tenho, dissipando-se apenas quando colocarei o pé no aeroporto da Portela. Até posso chegar a Budapeste, e mais tarde a Praga, e encontrar-me desencantado por não corresponder às minhas expetativas - há uma ínfima probabilidade desse evento - mas isto já ninguém me tira, o poder deste sonho que me escapou para fora do meu alcance de controlo. Pouco me importa; é para isto que vivemos. Não sei se sou diferente dos outros por causa disto, ou se sou um perfeito igual por partilhar da mesma ânsia, mas só de uma coisa tenho a certeza, a de ser para me sentir assim que estou a viver. Não quero que a viagem, a experiência, a geografia, o património e o turismo sejam apenas uma fase, quero que seja a minha vida, tal como me foi destinado desde que peguei num atlas pela primeira vez, ainda nem ler sabia.

sábado, 1 de agosto de 2015

Mal necessário

Engana-se quem pensa que o processo inteiro que leva até sermos finalmente aceites e podermos estar descansados em relação à nossa vida é célere e relativamente fácil. Creio que nunca até agora tinha passado por uma burocracia tão extensa e maçadora (talvez só quase tão mau como a da bolsa de estudos), recheada de prazos consecutivos, documentação às paletes, constantes viagens ao meu coordenador de curso e à DRI para saber se está tudo em ordem e para reunir assinaturas, carimbos, confirmações.

Só de pensar nisto já cansa. Sou um tipo que gosta de ter na mão todas as pedras que possa contar. Odeio quando algo foge do meu controlo e entra numa situação de indefinição que depois se torna cíclica e adquire até o efeito de bola de neve porque obviamente, quando se trata de burocracia, basta falhar um só pormenor que imediatamente todo o castelo de cartas está na iminência de ruir.

Isto é quase como me sinto assim que penso que já estou safo e logo depois jorram mais papelada em cima.


Foram males necessários para que eu pudesse estar um passo mais próximo de Praga. A recente reformulação do plano de estudos do meu curso, levada a cabo pela faculdade, não ajudou muito no sentido da resolução e veio complicar mais as contas; o caminho a tomar foi eleger as unidades curriculares ainda a pensar no plano anterior e depois quando já estivesse na República Checa iria alterar tendo em conta as minhas inscrições já com o novo plano em vigor. Escusado será dizer que ainda hoje não faço ideia de que cadeiras farei lá fora ou não, tanto pela incompatibilidade de algumas delas entre os planos de cada universidade como pelos seus conteúdos, créditos atribuídos e até a localização das próprias faculdades onde as aulas são dadas.

Fui colocado na residência de Hostivar, creio eu a principal para os estudantes de Erasmus, situado no bairro homónimo, a precisamente oito quilómetros da minha faculdade, a de Ciências, entre Vinohrády e Vysehrad, pousado quase à beira do rio Vltava. Para terem noção do quão compacta é a cidade de Coimbra, eu de minha casa - onde vivi quase toda a minha vida - levo pouco menos de meia hora a pé a chegar à Universidade. Eu não vivo naquele que é considerado o centro, mas quem vive em Coimbra tem normalmente sorte no diferendo da localização por tudo ser muito próximo. Tenho colegas no curso que me chamam louco por me deslocar a pé desde a minha casa; que diriam eles ao ver o que tenho pela frente, certamente a reação não seria menos chocante do que quando fiquei assim que o Google Earth me deu a localização da residência.

Não tenho hipótese, estou mesmo obrigado a tirar o passe de transportes públicos, e mesmo assim levo meia hora a chegar ao meu destino. O que vale é que os transportes em Praga, além de serem muito mais baratos, têm também um nível de organização absurdamente diferente de Coimbra ou até de Portugal inteiro: um em cada dois minutos quase, com paragens cronometradas em cada local, tudo na exatidão e prontidão de quem se exige rigor e eficiência. É, de fato, um mundo diferente. Um que eu quero muito estar. Mas até lá, tenho de atravessar a selva burocrática que me impõem. É um mal necessário.


À última da hora

Foi quase sem querer, à última da hora, a tomada de decisão naquele que será o meu último ano de licenciatura, porventura uma das épocas mais importantes da minha vida, de ir lá para fora completar um semestre. Se é verdade que sempre pensei em algo do género desde que se realizaram palestras de esclarecimento acerca das deslocações em Erasmus há uns anos atrás na minha faculdade, na realidade nunca encarei essa possibilidade como algo sério. Estava acima de mim, um sonho distante de alguém que mal saiu de Portugal de repente encontrar-se a si mesmo repleto de novas silhuetas, ideias, paisagens. E, diga-se de passagem, é algo que profundamente adoro, desde que era aquele pequeno miúdo que passava as chuvosas e desconfortáveis tardes invernais na mesa da sala lá de casa a devorar os atlas que podiam muito bem ser mobília da casa com os olhos e a mente. Tantos anos a ler a mesma informação sobre as mais variadas geografias proporcionaram-me uma vontade indomável de querer ver tudo com os meus olhos. Nunca houve, porém, nem tempo, nem fundos, nem coragem. Muito menos partiu de mim a renovada decisão tomada no início deste ano.

A ideia veio da Íris, habituada a deixar-se levar pelo ímpeto e pela emoção, características tão típicas dela como a sua propensão para o planeamento antecipado, que não estabelece uma boa correlação com a impetuosidade, e acaba sempre por ser permeável à imprevisibilidade. Eu gosto disso nela; sinto que consigo corrigir esse aspeto dela e ser uma espécie de farol, ao mesmo tempo que ela incute em mim o descaramento em ir mais além. Lembrou-se subitamente da existência dessa possibilidade e da eventual reunião das condições para se ser exequível. Não tardou muito para me convencer.

Vou para Budapeste, diz-me ela, numa reação quase imediata da minha parte envolta num misto de curiosidade e confusão. Hungria...suponho que não seja mau, lá barato é, pelo menos mais do que aqui, imagino que o florim não tenha tanta força como o euro, mas Budapeste é uma metrópole gigantesca, sei lá eu da mistura de personagens que lá deve haver, ou se tem algo de interessante. Isto foi o que eu pensei na altura, Era jovem, ignorante, inculto sobre a pose magnânima de Pest e a beleza pitoresca de Buda (há 8 meses atrás mas ok).

O meu curso não oferecia essa opção, pelo que acabei por ficar pela escolha mais coerente - e da minha preferência pessoal - que recaiu sobre Praga. À histórica capital da Boémia já eu estava melhor acostumado: sempre soube da Rua Dourada, do castelo de Hradcany, do magnífico Relógio Astronómico...Praga é um tesouro medieval que resistiu às investidas das Grandes Guerras e de toda a erosão humana. Na sua maior parte, pelo menos.

Eu para Praga, ela para Budapeste. Aproveitaríamos a distância para viajarmos frequentemente para destinos relativamente próximos e do nosso interesse em particular, e as hipóteses surgiram-nos na mente de forma quase instantânea: Cracóvia, Wielizcka, Viena, Bratislava, Dresden, Leipzig, Berlim, Munique, Salzburgo, Brno, Plzen, Pecs, talvez Zagreb...o entusiasmo fez-nos mergulhar de cabeça diretamente na pré-candidatura online.

A decisão estava tomada. À ultima da hora, quase em cima do prazo, por influência da minha namorada. Mas pode muito bem ter sido a decisão mais significativa da minha vida até ao momento; o tempo o dirá, e a verdade é que ainda falta precisamente um mês para embarcar no avião que me levará para fora de Portugal. Mas, para mim, a minha experiência de Erasmus começou verdadeiramente quando cliquei no botão de confirmação de envio da pré-candidatura.