8 - Em Praga, sê chinês
É absolutamente engraçado: a noite de Coimbra está repleta de cantos, preenchidos de mosquitos, com máquinas automáticas que vendem comida sobrevalorizada, entre outras comodidades noturnas como preservativos ou lubrificantes. Em Budapeste, substituem-se os dispensores mecânicos pela comida turca; em cada esquina é possível encontrar-se sítios que vendam Kebab, Gyros ou fatias de pizza abertos a toda a hora. Praga, no entanto, é peculiar. Não é segredo nenhum que a comida checa não é propriamente a mais saborosa nem a mais saudável, de forma que tanto os locais como os turistas confiem mais em especialidades internacionais. Tal não ocorre na maioria dos restaurantes, que continuam a confiar em clássicos como o Gulyás (um prato húngaro escreve-se em húngaro!) ou os knedliký (os tais bolinhos feitos de massa) com tudo e mais alguma coisa, até à carpa, facilmente das poucas opções piscícolas disponíveis neste pedaço de interior europeu. Se formos, porém, a um centro comercial, o piso de restaurantes apresenta normalmente muito poucas opções, e estas restringem-se ao McDonald's, um restaurante mexicano qualquer, o Nordsee, um vegetariano, uma pizzaria desconfortavelmente cara e depois o grosso da companhia: toneladas de sítios de comida chinesa ou mongol, sempre cheios de checos, que parecem gostar mais de noodles do que da própria vida. Até dá impressão. No Albert ou no Tesco, porém, as diferenças prendem-se sobretudo na padaria: não raras vezes dou comigo a comprar uma espécie de baguete coberta na côdea com queijo, fiambre e bacon, que é bastante bom, e sobretudo uma espécie de criossant de salsicha que é absolutamente brutal. Aliás, tanto a salsicha checa como a magiar são de uma qualidade infinitamente superior à portuguesa, e tenho de me lembrar de levar umas quantas de volta a Portugal. Não se pode dizer o mesmo do atum, que pelo que já ouvi dizer de pessoal tuga aqui, é um completo nojo. Ainda bem que trouxe uns sete pacotes da Tugalândia. Um gajo prevenido vale por dois.
9 - Não sejas o típico turista
Pode parecer insistência de ódio injustificado, mas passar uns tempos num centro tão frequentado pela mais variada massa turística fez-me ganhar uma consciência como que a raspar o nojo pelo estereótipo do turista de massas: tipicamente o casalinho reformado, de boné, óculos de sol, camisa desabotoada, corsários e havaianas, sempre de Canon na mão e disposto a fazer tudo no centro, onde estão os seus companheiros anónimos todos unidos num único objetivo, independentemente dos custos porque: primeiro, que se foda; segundo, porque será legítimo comprar a experiência que todos têm e não arriscar-se a perder nada. Este tipo de atitude reflete-se na constituição social do centro de Praga; os próprios locais preferem evitar deambular por esses sítios porque, à semelhança do que ocorreu com Lisboa, sentem que perderam esses locais para os estrangeiros cheios de papel e com muito maior poder de compra. O que sucede, então, é que todas as ruas do maldito centro estão CHEIAS de lojas proxy; desde Na Prikope e Celetná até Karlová e o outro lado do rio em Malá Strana, dúzias e dúzias de fileiras de lojas de souvenirs, cristais da Boémia, granada checa, lojas de bebida - todas sem criatividade e repetindo cada artigo existente, em preços no mínimo chocantes - claro está, para a disposição do amigo turista, único público-alvo, porque nenhum checo sério vai engolir nada dessa merda que muitas vezes é propriedade de indianos e chineses, ironicamente. O destaque, porém, vai para os hilariantes salões de massagem tailandeses, com posters flamejantes gigantescos à porta, ilustrando um nada subtil 9.99€, e depois em letras muito pequeninas, "*from". À porta, está sempre um tipo vestido com uma espécie de robe verde, o chapéu em forma de cone do sudeste asiático, e uma carruagem a imitar o típico da região. A personagem, como seria de esperar, nem asiática é; muitas vezes são os próprios checos, matulões, branquinhos e carecas, a desempenhar o papel. Totalmente genuíno, como conseguem ver. Se alguma vez forem para estes sítios, abstenham-se de seguir a multidão e aventurem-se em sítios por onde normalmente ninguém sonharia em ir e falem com toda a gente: isto, aliás, está cada vez mais em voga, e chama-se turismo de experiências. É o futuro, meus amigos.
10 - A exuberante noite de Praga
A noite em Praga é exatamente aquilo que se podia esperar, pelo menos em ambiente Erasmus: grupos gigantescos representativos de cada residência que se acabam por misturar com pessoal que vive em casas privadas, que ou começam a noite cedo num bar mais pequeno ou vão diretamente para as grandes discotecas onde reina a música latina estupidamente repetitiva e o comilanço desenfreado entre casais aleatórios que não acontece tanto como eu inicialmente suspeitava. Neste aspeto em particular, Coimbra oferece uma atmosfera muito mais propensa à badalhoquice espontânea. Sinto que as pessoas em Erasmus, pelo menos as que não são dos países mediterrânicos, não vêm com o mindset fixo em comer tudo o que aparece pela frente, tal reza a fama em geral. O que não os impede, ainda assim, de tentarem na mesma.
Geralmente paga-se bastante para entrar num sítio qualquer que seja conceituado, embora com a existência de RP's o preço de entrada pode normalmente ser contornado através de guetslists via Facebook. Tudo o que não seja cerveja chega a ser caro demais para a carteira comum se não se tiver cuidado. Os espetáculos oferecidos, porém, são a uma escala a todos os títulos notável. Toda a variedade de atividades diferentes nos mais diversos lugares estão disponíveis, desde a sala de gelo e o desfile de checas semi-nuas na famosa discoteca tourist-trap de cinco pisos pelo qual se paga 200 coroas (8€) de entrada; o darkroom/festa de semáforo no Chapeau Rouge, que goza de elevadíssima reputação na cidade, ou simplesmente de grandiosidade temática em sítios icónicos como o Radost FX, o Roxy ou o Palác Akropolis, que mais depressa se enche de ingleses gordos e bêbedos do que propriamente de jovens garotas como as que frequentemente são publicitadas. Eu pessoalmente, como apreciante de rock que sou, adorei o ambiente do Vagon, em Narodní Trida, que é um excelente sítio para um gajo abanar a cabeça ou beber umas jolas com os amigos depois do jantar. Infelizmente, pareço ser o único na minha residência que gosta de rock ou de metal, pelo que tenho de me restringir a sair com a Iris e o Daniel em Budapeste se quiser ir a sítios onde o som seja audível ao invés de ter de me contentar com Bailando, El Perdón, Waka Waka e La Camisa Negra infindáveis vezes em qualquer bodega de Staré Mesto.




