terça-feira, 29 de setembro de 2015

A cidade das cem cúpulas

Não houve melhor remédio para a forma como as coisas estavam a decorrer do que prometer a mim mesmo um tempo sozinho a explorar as maravilhas que Praga tinha à minha espera. Afinal, era uma das coisas que eu tinha planeado fazer, e que tinha ficado sempre em segundo plano devido tanto à distância e custo de transporte desde Hostivar até ao centro como pela urgência de outros assuntos, relacionados ou com a minha acomodação na residência ou com a universidade, que começa oficialmente (para Geografia, pelo menos) amanhã com o dia de orientação que eu prevejo que seja o ponto de mudança para mim aqui.

Por agora, dediquei a mim mesmo este dia e aproveitei para conhecer a cidade enquanto o tempo e a luz solar ainda fossem favoráveis. Foi a melhor escolha que podia ter feito. Comecei o meu roteiro em Václavské námesti, na ponta sul mesmo junto ao Museu Nacional, e percorri a avenida repleta de restaurantes, lojas e hotéis em direção a Mústek. Daí, foi um calcorrear nas ruelas tão encantadoras e típicas da Europa Central, com maravilhas à espreita em cada esquina, desde as coloridas lojas de souvenirs e de cristais da boémia, às bancas de comida de rua ou...aos estabelecimentos que se dedicam a vender absinto, do género que rodeia os 70%.



Não perdi tempo a chegar a Staromestské námesti - a Praça da Velha Cidade - e a participar no ritual horário da dança dos apóstolos no Relógio Astronómico. O espetáculo em si não é brilhante, mas a torre e a decoração de todos os edifícios em redor é absolutamente mágico. Nota para a multidão de turistas que aflui ainda nesta altura do ano, contrastando profundamente em números com Budapeste e até Lisboa.






De seguida, percorrendo a rua Karlová e remando contra a maré de turistas asiáticos, franceses e espanhóis, atinjo a ponte homónima. Terão de me desculpar por eu estar a poupar nos detalhes agora, mas tenho alguma pressa em terminar isto para poder dormir algumas horitas que amanhã acordo cedo!













Uma vez percorrido o rio Vltava, decidi subir a colina de Hradcany com o objetivo principal de ver a Zlatá Ulicka (Rua Dourada), a famosa ruela dos alquimistas dos tempos reais das casinhas charmosas onde viveu, entre outros, Franz Kafka, um dos supra-sumos da literatura checa (apesar de este escrever em alemão, idioma reinante na altura do domínio habsburgo. Fiquei-me por Prazsky Hrad, ou o Castelo de Praga, e sobretudo pela edificação que valeu o meu dia inteiro: a esplendorosa Catedral de São Vito, que me fez ficar de boca aberta durante uns bons minutos. No caminho de volta a Stare Mesto, passei ainda por uma estátua bastante curiosa, a rua mais estreita do mundo, um casamento, uma loja de gomas hilariante e pela Torre da Pólvora. Deixo tudo em fotografias com a promessa de elaborar mais o meu conteúdo quando tiver tempo para tal. Amanhã o dia é longo.









domingo, 27 de setembro de 2015

Praga: a nova vida e a difícil adaptação

Mal me aguentava em pé no momento em que, numa sofreguidão imensa em não faltar o autocarro das seis e meia da manhã depois de uma noite de bar aberto absolutamente cruel para o meu fígado, entrei no veículo que me levaria para fora da minha agora amada Hungria. A camioneta da EuroLines apresentava desde logo uma novidade muito bem recebida por mim: à entrada estava localizado um cesto com garrafas de água, vitais para ajudar a dissipar a minha maleita alcoólica. Outra particularidade estava numas revistas disponíveis para quem quisesse ler, e a verdade é que foi a sopa de letras e o Sudoku a passar algumas das sete horas de viagem que tinha pela frente.

Depois de uma breve paragem em Bratislava, parámos na fronteira entre a Eslováquia e a República Checa para uma inspeção surpresa da polícia. Assumi que estavam à procura de imigrantes ilegais visto que pediram os passaportes de toda a gente. Eu, o único estrangeiro de relevância dentro da camioneta e logo com aspeto de magrebino fui o visado pelas autoridades quando apresentei à frente deles o meu cartão de cidadão português. O agente que o analisou, não convencido, reuniu um grupo de fardados lá fora para verem o cartãozito. Enquanto isso, todos olhavam para mim -- aqueles 15 minutos de fama que tu NÃO queres ter. Eventualmente ocorreu na cabeça dos senhores agentes que não havia problema nenhum e saíram tão depressa quando entraram.

Entre nova paragem em Brno e a chegada final a Praga, a camioneta acabou por chegar atrasada quase uma hora e dificultou grandemente a minha ordem de tarefas nesse dia, que consistia em apanhar todos os sítios que deveria ir até às cinco da tarde. Felizmente, consegui fazer tudo, ainda que em esforço. Registei-me na minha nova residência em Hostivar, tirei uma série de dúvidas em relação à cidade e a vários procedimentos e comprei uma pulseira para uma festa numa discoteca logo nessa noite (é sempre a andar meus filhos).

Lobby de entrada da residência de Hostivar, poiso temporário de toda a malta enquanto ainda não há internet nos quartos.


Conheci desde logo o meu novo colega de quarto, um cantábrico chamado Javi, que provou desde logo ser um rapaz cinco estrelas com tremenda disponibilidade, o que representou em mim grande alívio -- seria essencial ter um colega em quem pudesse confiar desde o início.

Ainda nem tive tempo de ir ao centro da cidade ver os monumentos e tirar fotografias. A busca frenética por estabilidade dentro do meu novo quarto fez-me ir muitas vezes ao centro comercial próximo daqui, Park Hostivar, para comprar bilhetes de transporte, arranjar o meu novo tarifário, imprimir algumas coisas, e comprar alguns itens essenciais como utensílios de cozinha e alguma comida mais básica. Acabei, no entanto, por comprar cerveja acima de tudo. O motivo? A foto em baixo:

Seis coroas equivale equivale a 22 cêntimos. Sendo que o vasilhame aqui tem um imposto acrescentado de 11 cêntimos, cada meio litro de cerveja mais barata custa 33 cêntimos. Sim, isso mesmo.


Logo na minha primeira noite, fui agraciado com festa de corredor no meu piso. Conheci uma panóplia de nacionalidades no processo, mas depressa aprendi que alemães e espanhóis são dois dos povos mais representados por aqui. Também havia alguns portugueses, mas o nosso contato foi muito ao de leve. Na saída à noite, novos problemas com a polícia: fui apanhado a beber o resto de uma garrafa de vodka em pleno metro, algo que fiz com uma inocência perigosa, e a entrada de quatro polícias que mais pareciam seguranças de modo a interpelar-me entre o imenso grupo de pessoas que lá estavam foi assustador, no mínimo. Perguntaram-me de onde era, identificaram-me, e disseram-me que ali era proibido beber em locais públicos. Estaria prestes a levar uma multa de 40€ mas safei-me ao mentir-lhe referindo que em Portugal o mesmo não era proibido e que ali estava apenas por um dia; ele fez-me prometer que me portaria melhor dali em diante. Houve pessoas que me confessaram que não tiveram a mesma sorte em escapar às autoridades quando foram apanhadas, por exemplo, sem título de transporte válido.

A noite em Praga não difere muito da de Budapeste, mas notei a presença de menos pessoas nas ruas, e estas seriam de cariz internacional; não reparei em muitos locais. Isso também se nota nos transportes: são menos frequentes, mais lentos e com menor taxa de ocupação. É normal: Praga tem pouco mais de um milhão de habitantes, Budapeste atinge os três milhões. Dentro da discoteca, o assunto era outro; tudo repleto de pessoal de Erasmus, uma verdadeira dança de pavões machos a tentar seduzir as fêmeas premiadas entre movimentos de roçar a perna, convites para beber algo, beijos no pescoço disfarçados de sussurros ao ouvido, tudo num ambiente de música que a mim pouco me diz. Apesar de tudo, a situação não é tão selvagem como alguns querem fazer passar: apenas uma taxa muito reduzida de pessoal se põe no comilanço, e a maior parte fica a arder, seja por que motivo for. Mas a intenção é sempre claramente a mesma, mas não se vê disso nas raparigas, talvez porque sejam elas à espera de movimentação do seu próprio alvo, ou porque elas gostam legitimamente daquela atmosfera e seja aquilo o seu pretexto de diversão.

Na verdade, e das vezes que já saí, dei em mim a arrepender-me por o ter feito. Fico com a impressão de que cheguei demasiado tarde e que todos os pequenos grupos já se formaram e as pessoas parece que já são amigas desde sempre porque dentro de todas as minhas tentativas de tentar arranjar malta com quem me dar, acaba tudo em frustração porque depois das conversas iniciais do "where are you from?" e do "what are you studying" e "are you enjoying Prague", as atenções viram-se para o restante grupo, com quem já têm confiança, ou, no caso da noite, passando pelo ignoro total. É deveras irritante: o falhanço em desenvolver esse nível de confiança com alguém provocou em mim uma mudança de mentalidade: deixei de tentar forçar a conversa, o sorriso, a dança no meio deles todos - porque isso não implicou resultados - e pus-me quieto, à parte dos grupos mas ainda entre eles, para ver se alguém reparava. Nada. Era impressionante, não sentia isto desde a secundária, onde me lembro que cheguei a desatar a chorar em plena sala de aula por pura solidão. Mas era isso mesmo: a pior solidão de todas é quando estás acompanhado mas és, na verdade, um fantasma.

O cúmulo aconteceu quando me fui sentar, cansado da travestia, e uma das tipas que estava a comer um alemão dentro do grupo perguntou se ia ficar ali e disse para lhe guardar o casaco dela, tendo depois voltado para o meio deles. Fiquei destruído por dentro. Ali estava eu, feito um beta de merda, a pensar que se estivesse neste momento em Coimbra teria tido um jantar de curso no meio de pessoas que adorava, a divertir-me e a apanhar uma chiba memorável. Não aguentei mais. Peguei em mim, fui-me embora para casa, confessei ao Javi (que é o mais próximo a um amigo que tenho ali por força de sermos colegas de quarto) que não está a correr bem esta nova adaptação, e ele até estranhou visto que eu falava bem inglês e espanhol. Eu também estranho. Não parece de mim. Não sei o que se passa comigo, ou com os outros, ou com o mundo. E isso está a deixar-me com uma confusão imensa e não sei como reagir a isto tudo. Por agora, só fiquei desiludido com a noção de que haveria mais pessoas na minha condição de chegarem sozinhas e terem de se pegar umas às outras com a maior das facilidades para se adaptarem melhor. Até agora, fiquei chocado com a dificuldade que tive em criar relações que passassem além da mera conversa casual. Nem em Budapeste isto me tinha acontecido, e eu nem fazia parte da faculdade deles.

Ok, tudo bem, ainda nem sequer me inscrevi na universidade e ainda só cá estou há quatro dias. Mas como já sempre disse, não gosto nada de não me sentir no controlo da situação. Tenho um medo enorme de passar o semestre inteiro a ir às festas sozinho ou a não ir de todo e a permanecer num estado passivo como me aconteceu no secundário.
Não é assim que devo pensar. Tenho que sair, visitar as merdas, fazer o que vim aqui para fazer que foi acima de tudo ver, experienciar e sentir atmosferas diferentes das de Portugal; não posso deixar que este contratempo inicial me deturpe os planos. Já dizia o outro que tudo acontece quando menos esperas, e isso é inteiramente verdade. Vou fazer a minha vida e depois logo se vê.



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Búcsú Budapest...

24 dias que passaram de forma tão célere, quase ficando um amargo na alma de não poder ter saboreado mais intensamente as maravilhas que a capital húngara tem para oferecer, mas de certeza permanecendo a promessa de voltar sempre que puder, mesmo quando já não estiver em Erasmus. Será um crime não o fazer, e a dor de ter a cidade na minha mente sem perspetivas de voltar seria insuportável. 

Já quase me ia esquecendo de como se arrumava a minha mala e, de fato, já as minhas coisas andavam espalhadas pela casa, como se de um inquilino se tratasse, mas a minha breve condição não permitiu sobressaltos alongados além do que a minha mente permitia estando condicionado, sempre e unicamente, ao estatuto de temporário na Hungria, apesar da minha afinidade, lentamente conseguida, pelo território, pelos costumes, pelo povo e o fervor que sentem pela sua nação.

Hoje vou sair à noite, aproveitar a promoção de bar aberto no Morrison's, já acima de Nyugati, com a malta da casa que se dignou a tornar a noite deles numa festa de despedida para mim, meter-me no karaoke e esperar apanhar uma cabra valente antes de voltar a casa, dar os toques finais e dirigir-me ao Metro 3 para ir à estação terminal apanhar o autocarro das... seis e meia da manhã. Vou chegar todo podre e partido a Praga, isso é certo e adquirido mas hey, que se foda. Não há de ser nada.

Se há coisa de que vou ter saudade, será certamente do vinho. A partir de agora a cerveja é rainha e senhora em terras checas.


A verdade é que à altura em que escrevo esta publicação, não estou ainda preparado para enfrentar uma capital nova e um idioma novo e apesar de me ter equipado com alguns mapas tirados em print screen e guardados como imagens no telemóvel, a verdade é que andarei às cegas à procura de um multibanco que não me roube à descarada ou de um centro de informação e venda de bilhetes de transporte e amanhã será um dia extremamente atarefado, em que irei gastar muito dinheiro, andarei de um lado para outro e serei forçado a falar gestualmente com muitas pessoas, tudo isto com um sono a cair de lado. Uma combinação mortífera à qual tentarei sobreviver. A ver como corre. Por agora, espera-se uma despedida triunfal de um país pelo qual me apaixonei. Köszönet mindenért, Magyarország!!!


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A grande volta ao Mar Húngaro

A sexta feira passada foi um dia bastante preenchido. Depois de ter ficado acordado até altas horas da madrugada para completar a minha mais recente publicação (o que provavelmente acontecerá hoje também!) acordei, com apenas uma hora de sono em cima, para nos encontrarmos com a mentora da Iris, a Reni, em Rákóczi tér perto das 10 horas da matina - relativamente cedo para mim - a fim de fazermos uma saída de campo a quatro pelo Lago Balaton, conforme elas tinham combinado previamente. A Reni avisou apenas para levarmos material para banho e algum dinheiro para ajudar a pagar a gasolina. Seria muito pouco para aquilo que viríamos a agradecer depois.
Ela veio ter connosco já dentro da estação de metro de onde seguimos pela linha verde até Bikás Park, onde conheceríamos o namorado da Reni, um rapaz chamado Balázs (pronuncia-se Báláche) que seria o nosso condutor para a viagem. Admito que o Renault dele, estilo desportivo, soltou em mim alguns sorrisos. Bastante confortável, por acaso.

Seguimos viagem em direção a sudoeste, saindo de Budapeste e entrando nas vias rápidas. Passámos o tempo a falar sobre as diferenças culturais entre Portugal e a Hungria, sobretudo a nível de preços, gastronomia e alternativas turísticas. Não posso deixar de pensar que foi sempre aquilo que queria como perspetiva de Erasmus: conhecer os locais e partilhar tudo o que sabia com eles, ao mesmo tempo que aprendia o que eles tinham para dar, e surpreender-me com as diferenças culturais e geográficas. É fascinante.

Parámos em Szekésfehérvár, a antiga capital do reino húngaro, plena de expetativa pessoal por ser aqui que estariam enterrados o primeiro rei da Hungria, Szent István Király, (Santo Rei Estêvão) e o seu filho, o Santo Príncipe Imre. Pensava eu que, por ser quem foram, estariam enterrados numa sumptuosa e decorada tumba com direito a todas as coqueluches, do estilo D. Afonso Henriques no Mosteiro de Santa Cruz, mas a verdade é que Szekésfehérvar mostrou ser uma meia desilusão para mim. A cidade, apesar de conter mais ou menos a população de Coimbra, tem um centro incrivelmente pequeno para a sua história, polvilhado com algumas igrejas que não são vista invulgar em Budapeste, e o local de descanso final do Rei Santo é, afinal, uma ruína a céu aberto, numa gravura vermelha incompreensível ao longe, visto para que se entrar na ruína era preciso pagar. Note-se que a ruína não passava de um par de colunas rodeadas por um muro no meio de um descampado e as ditas gravuras espalhadas pelo solo. Como se não bastasse, todo o centro histórico estava inexplicavelmente vazio, apesar do excelente tempo. Valeu a excelente pastelaria que encontrámos para tomarmos o pequeno-almoço.

Seguimos caminho para o Mar Húngaro, como os locais chamam a Balaton, desta vez a passar o tempo de viagem a aprender a pronunciar o idioma magiar num livro sobre o lago que a Reni me emprestou, apenas para provocar risos no casal da frente devido às minhas tentativas parcialmente bem sucedidas mas sem entender patavina do que estava a dizer. Aparentemente, era um livro turístico e eu estaria a dizer meios de transporte. Giro.
Foi-nos dito para fecharmos os olhos quando parámos o carro, numa ligeira colina verdejante e agradável, e saímos em direção a uma pequena torre de observação. Fomos agraciados com esta vista magnífica sobre a península de Tihany, o lago em geral, e Balatonfured ao fundo.








De seguida fomos à casa de verão da Reni, em Szántod, uma vivenda com quintal repleta de ternura, junto à margem sul do lago, alinhada com outras vivendas do género, um parque infantil ao perto e um café fechado. Trocava-se a relva por areia e diria que estávamos na Ilha da Armona. Fui surpreendido pela Reni ao aceder ao meu desejo prévio de provar csirkepaprika e ela mesmo preparou o almoço em casa, precedido de um shot de Pálinka (que é mesmo muito bom, por sinal, quase não se sente o álcool apesar dos 30%; deram-nos depois a garrafa, num gesto simbólico), estando tudo no ponto, desde a comida à companhia. Fiquei a sentir-me mal por não poder retribuir imediatamente tamanha hospitalidade que eles tiveram para connosco.



Não consegui aguentar a carga horária privado de sono e comecei a dormir durante a viagem à volta do lago, o que não significou muito visto que o caminho tomado foi o da via rápida, muitas vezes impossibilitando qualquer vista sobre o lago. A paragem seguinte foi Keszthely, no extremo sudoeste do lago, para ver o palácio de Helikon e o seu jardim; localidade esta que fica muito próximo de Héviz, uma vila termal com o maior lago natural de águas termais do mundo. Estava planeado inicialmente em irmos para aqui, mas não haveria tempo para tudo.
Parámos brevemente em Balatongyorok, para tirarmos mais fotografias ao lago, por outro ângulo, em que apanhasse a colina de Szigliget e o vulcão extinto de Badacsony (foi apenas ao aperceber-se da existência deste vulcão que se fez luz na minha cabeça do porquê da existência de tantas águas termais na Hungria). Acabámos mesmo por ir a Szigliget, uma fortaleza em ruínas usada sobretudo durante os tempos das invasões otomanas, subindo a colina e testemunhar a fantástica vista disponível em harmonia com os tornos muralhados do antigo forte empoleirado na colina soalheira.



Já a entardecer progressivamente, fomos a Tihany, a encantadora localidade na península homónima, onde a primeira coisa que vimos na igreja, banhada pelo sol sobre a encosta, foi um casamento - o quarto que vimos desde a nossa chegada à Hungria - seguido de várias lojas de souvenirs e de cafés. Ficámo-nos por um gelado, muito bom por sinal, de um pequeno quiosque perto de um marco intrigante assinalado como a câmara do eco. De lá, voltado para o lago, poderias gritar e ouvir o eco a uma longa distância. Fiquei impressionado depois de tentar a minha sorte. Publicaria aqui o vídeo mas a palavra que escolhi para berrar feito doido é de uma linguagem menos própria. Vá, não quero ofender susceptibilidades.

Fomos depois para uma espécie de pequena praia, junto à estrada peninsular, sem areia e apenas com um passadiço de pedra para colocarmos as toalhas, onde havia depois uma escadaria de metal semelhante à das piscinas, com acesso ao lago. A água, mesmo com o sol já por detrás das colinas, estava incrivelmente morna e o solo, lamacento, proporcionava uma experiência quase termal. A água é pouco profunda por uma distância tremenda e o seu movimento é inexistente. Ficámos por apenas meia hora, por força da pôr-do-sol, mas o mergulho que marcou o fim do verão não se esvanecerá da minha memória tão rapidamente.

A última paragem antes do retorno a Budapeste foi Balatonfured, a cidade mais populada e turística do lago. Os marcos significativos incluíram um hospital antigo, na verdade similar a um sanatório, águas com propriedades curativas (que sabiam mal como tudo), a marina de recreio repleta de patos e lindos ocasionais cisnes, e a avenida principal da cidade coberta de restaurantes e bares. Aproveitei para jantar aí visto que o regresso a casa ainda se afigurava longo, e experimentei uma comida de rua, muito apreciada por locais e turistas e que ainda não tinha visto chamada Lángos. Macacos me mordam se não foi a cena mais fixe que comi até hoje. Os húngaros chamam-lhe a pizza deles. A massa parece mesmo uma fartura, mas sem açúcar. O resto dos ingredientes era colocado por cima conforme os queríamos. Se abrisse uma cena destas na Sé Velha ou na Praça da República enchia-me de dinheiro todas as quintas-feiras.


Já de noite, não evitei o sono no carro depois do dia longo e da travessia igualmente extensa, mas plena de novidade e de emoção. Estou convicto de que foi o melhor dia que tive na Hungria até hoje e de que tanto a Reni como o Balázs fizeram de tudo para nos dar a melhor experiência possível e foram de uma disponibilidade incrível para nós. Além da minha eterna gratidão prometi-lhes a eles igual tratamento se eles algum dia fossem a Portugal. Terei sim o maior prazer em devolver ao dobro aquilo que me deram e eles são prova viva de que os húngaros, ao contrário do que a opinião pública comentarista do facebook quer fazer ver, são um povo extremamente prestável, generoso e hospitaleiro, com orgulho neles mesmos, é certo, mas de uma simpatia e humildade admirável. Prouvera tantos portugueses serem como eles.

PS: Reni and Balázs, if you're reading this - like you're supposed to! - here's stated my promise that if you ever convince yourselves to visit Coimbra some time I insist in receiving you as guests and to guide you throughout the country's hidden secrets in the same passion you demonstrated with me and Iris. No amount of words can explain how much I enjoyed the trip, companionship and gestures you both showed to us, people you barely know, and rest assured that it's an experience I won't ever forget in my life.

PPS: Come in May for Queima das Fitas and get unlimited beer! Balázs will surely love it!

PPPS: Save room in your lugagge to carry back some portuguese merchandise and ingredients to Magyarország. You'll definitely want/need it!



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Um emplastro português

Desde que finalmente a Iris assentou no quarto dela em Horanszky utca, Budapeste entranhou-se em mim numa perspetiva muito mais estável e eu consegui enfim identificar-me com a cultura húngara, o modo de vida quotidiano, e aproveitar para aprender alguns random facts como a história magiar, palavras úteis nativas ou sair à noite com a malta de Erasmus que constitui o grupo de colegas da faculdade da Iris.

A constituição dos colegas de casa não poderia ser mais diversa: dois irlandeses - um rapaz e uma rapariga - muito acessíveis, simpáticos, sorridentes e brincalhões; uma grega, sempre disposta a ajudar e a ser uma boa companhia; um italiano, mais recatado, calmo e bom rapaz; um vietnamita, que chegou apenas há uns dias mas que se tem provado ser um moço porreiro; e outro português, colega de curso da Iris em Coimbra, de seu nome Daniel. Ele e o colega de quarto irlandês, o Eddie, são verdadeiramente o coração e alma da casa e indubitavelmente os laços que mantêm o grupo unido, de certa forma. Fora do círculo caseiro, a primeira pessoa com quem nos começámos a dar mais foi outro português, um minhoto chamado Tiago, a partir de um encontro de portugueses em Erasmus com quem acabámos apenas por desenvolver amizade com um...em entre dezasseis pessoas. O grupo eventualmente alargou-se por ocasião dos encontros da Erasmus Student Network da faculdade da Iris, e acabei por conhecer não apenas a mentora húngara da Iris, de seu nome Reni, como mais dois portugueses, vindos de Lisboa, um arménio, duas belgas, dois turcos, dois mexicanos, duas espanholas, um croata e uma francesa, entre mais algumas mentoras locais. De fato, é meio engraçado que pelo meio de toda esta malta cosmopolita seja eu o temporário emplastro, por estar no meio do pessoal que vai aqui ficar e pertencente à rede que os interliga a todos e lá apareço eu, ali porque sim, nas fotos a sorrir e a ser mais uma peça integrante do puzzle humano. A verdade é que me acolheram bem pelo pouco tempo ainda passado, fazem-me sentir como um deles e costumamos sair todos juntos à noite.

A noite em Budapeste é algo de magnífico. Nas áreas compreendidas entre o 7º distrito, Oktogon, Andrássy út e Blaha Lujza tér as ruas estão repletas de pessoas à noite, acompanhadas dos nunca cessantes autocarros noturnos, lojas de conveniência abertos 24 horas por dia e vendedores de comida de rua, na sua larga maioria kebabs, gyros e pizzas. Reparei que Budapeste não está muito interessada em discotecas de dimensão larga, preferindo os recintos pequenos e mais casuais como os pubs e os bares. Mas alguns destes bares e clubes são lendários. Destaco o Instant, um prédio antigo reconstruído para albergar múltiplas galerias labirínticas que acabam em grandes quartos que funcionam como pistas, cada uma com o seu estilo musical, sempre cheio, sempre a bombar, e de entrada gratuita. É dos sítios mais afamados na cidade. O Szimpla é ainda mais lindo: um bar assentado sob um prédio em ruínas, completamente charmoso, também este amplamente procurado pelo seu ambiente fenomenal para estar a beber uma cerveja e conversar com a malta. O Fogasház é um recinto pequeno, um espaço aberto interior no fundo de um túnel, com uma atmosfera insana e com a maior percentagem de porcalhice e comilanço instantâneo de que tenho memória; pior só mesmo o Peaches & Cream, um club já com um estilo mais à NB mas ainda assim pequeno, que em noite de festa de Erasmus estava a pontificar na loucura sexual -- não consigo explicar sequer por palavras o que os meus olhos viram, além dos heróis solitários que tentavam engatar às quatro de cada vez, de vestidos muito ousados, casais a lambuzarem-se pelas faces todas, um britânico com 1,60m a dançar kuduro com umas três raparigas em cima rodeadas por um círculo de americanos todos à espera dos restos, tudo a suar e a cheirar a cavalo, moças a roçarem-se, rapazes a empurarrem e a meter conversa com tudo que tivesse vagina, um DJ gordo e com gravata a passar os hits do Gula lá do ano ido de 2013 (exceto a brasileirada, claro). 

Houve muito mais vida para além da noite. Budapeste NÃO é definitivamente uma cidade para se visitar em um ou dois dias. As opções são quase ilimitadas, e por muito que me quisesse alongar sobre os sítios aos quais fui e que constituem à data de escrita desta publicação quase 300 fotos no meu álbum do facebook, reduzir-me-ei aos nomes -- deixarei estas memórias para depois, se não me esquecer ainda delas.

A colina de Géllert e a Citadella proporcionou-me a melhor vista da cidade e um abre-caricas muito elegante com a forma de uma caneca de cerveja e uma respetiva inscrição a mencionar "Budapest". No sopé da colina, as termas homónimas relembraram-me o quanto tenho de poupar e renunciar a certas coisas; a Praça dos Heróis é gloriosa e memorável e dela retirei algumas das minhas melhores fotos, que publicarei em altura própria; a Váci utca, revisitada por mim depois da soneira do meu primeiro dia, conquistou-me pela sua elegância e compostura e foi aí que consegui finalmente um cachecol com motivos húngaros; a Basílica de Szent István, decididamente monumental, foi uma visita guiada com prazer pela Reni, numa altura em que aproveitei para trocar impressões com ela acerca da Hungria e de Portugal; ela também nos acompanhou no Grande Mercado, em Fovám tér, um encantador e ocupado armazém repleto de bancas a vender produtos frescos e artefatos tradicionais; o Castelo de Vajdahunyad, construído na mesma altura em que o Metro, no fim do século XIX, que nos transporta para um conto de fadas medieval; a Grande Sinagoga, das maiores da Europa; o Magyar Nemzeti Muzéum (Museu Nacional), com uma disposição permanente que abrange toda a história húngara desde a fundação do reino pelos Árpád, passando pela resistência aos otomanos, a anexação austríaca, o movimento de independência, o Tratado de Trianon, a perseguição judaica, até ao fim da era comunista; os passeios pelo Danúbio de onde podemos ver, perto do Parlamento, os sapatos judaicos junto ao rio como uma lembrança dos tempos obscuros do partido da Cruz de Setas no poder como um estado-fantoche do Terceiro Reich; e finalmente o Jardim Zoológico da cidade.
Apesar de tudo, ainda me falta imenso para visitar, e com muita pena minha não o farei a tempo da minha partida para Praga, marcado para daqui a menos de uma semana. Felizmente, voltarei cá mais vezes, com olhares mais atentos e menos deslumbrados, para vos poder contar tudo de uma forma que não seja à pressa, e de preferência com mais fotos. Por agora, contudo, deixo-vos com esta singular captura que registei no Zoo.

Esta é provavelmente a avestruz mais fotogénica que verei na vida! Mas amigável não era; momentos depois tentou bicar a Iris. Foi bem feita, ela não tinha nada que meter lá o dedo.


sábado, 12 de setembro de 2015

Buda & Pest

O meu segundo dia na Hungria foi provavelmente o mais preenchido desde que aterrei aqui até ao momento em que escrevo esta publicação, quase duas semanas depois (como o tempo passa a voar!...). Como eu gostaria de me desdobrar em histórias e descrições detalhadas sobre o que fiz nesse dia mas terei que apertar imensamente o cinto para ver se consigo retornar o fio à meada e compensar o tempo perdido.

Depois do acordar de uma bela manhã no Budapest Budget Hostel, com o ruído dos homens a passear incessantemente nos andaimes espalhados pela fachada, dirigimo-nos a Ors vézer tere pela primeira vez, paragem terminal da linha vermelha do Metro, para a Iris poder tratar de assuntos relacionados com a sua inscrição na faculdade dela, tentativa que se revelou fútil por o período de matrículas ainda estar longe do seu início. Acabámos por ir almoçar ao Ikea, muito próximo das instalações da faculdade, já a roçar os subúrbios de leste da capital, onde por surpresa vimos uma espécie de cantina low-cost repleta de todo o género de húngaros, nenhum estrangeiro. Menu de cachorro quente mais bebida com refill infinito: 250 forintos, o que equivale a algo como oitenta cêntimos. Era simples, nada gourmet claro, mas para aquilo que era dava perfeitamente.
De seguida fomos a um centro comercial adjacente, provavelmente o maior da cidade, o Árkád, que de certa forma fez-me lembrar o Colombo em Lisboa embora sem, obviamente, a dimensão deste último. Suscitou-me a curiosidade de uma espécie de cupões de descontos que eles têm, numa espécie de banca com duas moças a estocar papelinhos pequenos em cima de uma mesa onde as pessoas, quais abutres esfomeados, debicam cada papel como se de dinheiro se tratasse (na prática significava isso mesmo) e, de fato, dava para entender o porquê de tanto frenesim: descontos malucos em todas as lojas do complexo, do género que em Portugal se precisava de passar por uma complicação extrema mas que em Budapeste tudo se torna mais simples. Passas por um aperto e uma fila durante uns minutos e poupas algum para depois poderes comprar mais uma Soproni quando saíres à noite. Não está mau.

Invariavelmente, passámos o resto do dia, estando livres de quaisquer restrições, a conhecer mais partes de Budapeste. A primeira paragem foi Margit Sziget (A Ilha de Margarida), a famosa ilha a meio do Danúbio, fazendo a ligação entre as duas margens através de uma ponte pelo lado sul. Acabámos por não nos alongarmos muito pela ilha, indubitavelmente bela, mas confrontada com a vontade de Iris em seguir caminho para Buda. Para a memória ficaram as rápidas visitas ao complexo de piscinas no lado sudoeste e o grande repuxo d'água, a sueste, onde muitas pessoas aproveitaram a tarde de calor para molhar os pés e assistir a um evento musical.



Apanhando de novo o elétrico na ponta sul da ilha, debruçámos os olhos sobre a primeira aparição de Buda perante nós, e saímos em Széll Kálmán tér, pertíssimo do sopé da colina da cidade muralhada. Os prédios volumosos e estradas amplas preenchidas por veículos foram sendo substituídos por ruas íngremes com piso de calçada, casas de estilo mais tradicional, com traves de madeira similares às da arquitetura bávara, e a muralha cumprimentava-nos, rodeada de jardins verdejantes e com um museu, de aspeto antigo mas muito bem conservado. Uma pequena fonte, nas proximidades, deu-nos a muito necessária água para acalmar a sede nessa tarde tórrida. Vespas voavam em torno da desembocadura, e um homem na casa dos seus 50 anos aproveitava, sem medo, para encher o seu cantil.


As encantadoras ruas, que contrastavam em beleza e ordem com as sujas e desorganizadas vias de Ferencváros e Joszefváros, guiavam todas ao mesmo sítio: Mátyás Templom, a belíssima igreja, uma das mais deslumbrantes que vi até hoje.


As maravilhas mais evidentes estariam, no entanto, nas traseiras da igreja: a estátua de um dos heróis nacionais da Hungria, o Santo Rei Estevão (Szent István Király) e o Bastião dos Pescadores, um conjunto de pequenas torres, escadarias e muros absolutamente maravilhosos que proporcionam a segunda melhor vista sobre Pest, ultrapassado apenas pelo topo da colina de Géllert.



Mais para sul, outro monumento grandioso se ergue: o Palácio Real de Budapeste. Por muito que o tente descrever por palavras, nunca a harmonia da escrita ultrapassará a substância das imagens que tirei.



No caminho de volta a Pest, já a noite tinha caído, atravessámos a pé a Pontes das Correntes, a primeira a ser construída sobre o Danúbio naquela região e que ligou pela primeira vez Buda e Pest. Foi, aliás, por esta ponte, que se passou a unir as duas cidades e dando-lhe o nome que hoje tem. De dia o panorama é de cortar a respiração, mas à noite é simplesmente mágico.


Para finalizar o dia, acabámos por ir a Oktogon para jantar, num restaurante de buffet que a Iris tinha descoberto na Internet - supostamente por ser relativamente barato - mas a única coisa que concluímos pelo restaurante foi que ela não ganhou muito apreço pela cozinha magiar. Não achou muita piada aos molhos. Eu, por outro lado, considero que a carne deles é muito boa, sobretudo a picada. Deixam um pouco a desejar nos acompanhamentos, mas ao fim e ao cabo comi tudo o que podia por cinco euros e fui para a cama sem me poder queixar. Tinha que ser; era a última noite no hostel e no dia seguinte teríamos mais uma vez que carregar a bagagem atrás até Horanszky utca, que ainda era um esticão, até a Iris estabilizar definitivamente no seu novo quarto.