Não sei se as outras pessoas que já foram de Erasmus passaram pelo mesmo, mas a espera angustiante que temos de aguentar infligiu-me uma síndrome psicótica, obsessiva até, de procurar saber tudo e mais alguma coisa sobre os sítios pelos quais passarei. Esse espírito curioso amplifica-se na minha essência de geógrafo puro: já antes tinha mencionado o tempo de infância passado a aprender tudo sobre a influência humana no território, mas quando o conhecimento é apenas superficial, se surge um motivo para aprofundar o olhar no iceberg, o vício é inevitável.
Quando dei por mim, ainda em Janeiro e logo depois de ter confirmado a pré-candidatura, já estava na FNAC a gastar horas de vida a mergulhar-me em manuais, guias e almanaques sobre Praga e Budapeste principalmente, mas se encontrasse blocos maciços sobre a Europa Central, qualquer pedaço de informação, desde restaurantes, pontos de interesse ou a fraudulência dos taxistas, tudo era aproveitado, numa indelével sensação de prazer, adrenalina até. A última vez que me tinha sentido assim foi no meu primeiro dia de aulas na Universidade de Coimbra, no Colégio de São Jerónimo. Apesar de ser basicamente coimbrinha quase desde nascença, a Alta constituía território desbravado para mim. Chego a admitir a vergonha de ter recorrido ao Google Earth para descobrir o caminho mais próximo a pé desde onde vivo até à Faculdade de Letras, cujo paradeiro eu desconhecia. Recordo que vivo a cinco minutos de carro da Universidade; ainda assim, passei o tempo todo a sul do Cidral. Aparentemente a Solum e o Vale das Flores são um mundo completamente à parte.
O devoro não se limitava aos livros. Cheguei a fazer diretas pregado ao portátil a pesquisar por complementos ao que eu já sabia online, desde depoimentos de pessoas que já passaram por lá, a fóruns especializados no assunto, a artigos da Wikipédia (que ao contrário do que as pessoas pensam, consegue ser bastante fidedigna hoje em dia), até chegar ao Google Earth e finalmente ao Google Street View para eu ter um cheirinho da paisagem que iria desfrutar nos próximos tempos.
E acreditem que se passa um bom tempo didático a usar esta ferramenta preciosa. Para alguém como eu, esta é a melhor invenção desde a guitarra elétrica.
A Iris fazia um pouco o mesmo, claro, mas eu chego a ser absolutamente louco ao ponto de me consumir o pensamento por inteiro durante dias a fio e de me tirar o sono devido à expetativa que criei para mim mesmo. Provavelmente serei o único a chegar a este nível de insanidade por causa disto, mas não tenho o hábito de viajar para o estrangeiro, e isso aliado à vontade de querer ver tudo pelos meus olhos, de praticar o meu inglês até à exaustão, à ânsia de ser um cidadão do Mundo - um Gonçalo Cadilhe urbano quase - transformaram-me nestes últimos meses num vulcão peleano à espera que a rolha de emoções se solte devido à pressão talvez injustificada da impaciência crescente que tenho, dissipando-se apenas quando colocarei o pé no aeroporto da Portela. Até posso chegar a Budapeste, e mais tarde a Praga, e encontrar-me desencantado por não corresponder às minhas expetativas - há uma ínfima probabilidade desse evento - mas isto já ninguém me tira, o poder deste sonho que me escapou para fora do meu alcance de controlo. Pouco me importa; é para isto que vivemos. Não sei se sou diferente dos outros por causa disto, ou se sou um perfeito igual por partilhar da mesma ânsia, mas só de uma coisa tenho a certeza, a de ser para me sentir assim que estou a viver. Não quero que a viagem, a experiência, a geografia, o património e o turismo sejam apenas uma fase, quero que seja a minha vida, tal como me foi destinado desde que peguei num atlas pela primeira vez, ainda nem ler sabia.
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