sábado, 1 de agosto de 2015

Mal necessário

Engana-se quem pensa que o processo inteiro que leva até sermos finalmente aceites e podermos estar descansados em relação à nossa vida é célere e relativamente fácil. Creio que nunca até agora tinha passado por uma burocracia tão extensa e maçadora (talvez só quase tão mau como a da bolsa de estudos), recheada de prazos consecutivos, documentação às paletes, constantes viagens ao meu coordenador de curso e à DRI para saber se está tudo em ordem e para reunir assinaturas, carimbos, confirmações.

Só de pensar nisto já cansa. Sou um tipo que gosta de ter na mão todas as pedras que possa contar. Odeio quando algo foge do meu controlo e entra numa situação de indefinição que depois se torna cíclica e adquire até o efeito de bola de neve porque obviamente, quando se trata de burocracia, basta falhar um só pormenor que imediatamente todo o castelo de cartas está na iminência de ruir.

Isto é quase como me sinto assim que penso que já estou safo e logo depois jorram mais papelada em cima.


Foram males necessários para que eu pudesse estar um passo mais próximo de Praga. A recente reformulação do plano de estudos do meu curso, levada a cabo pela faculdade, não ajudou muito no sentido da resolução e veio complicar mais as contas; o caminho a tomar foi eleger as unidades curriculares ainda a pensar no plano anterior e depois quando já estivesse na República Checa iria alterar tendo em conta as minhas inscrições já com o novo plano em vigor. Escusado será dizer que ainda hoje não faço ideia de que cadeiras farei lá fora ou não, tanto pela incompatibilidade de algumas delas entre os planos de cada universidade como pelos seus conteúdos, créditos atribuídos e até a localização das próprias faculdades onde as aulas são dadas.

Fui colocado na residência de Hostivar, creio eu a principal para os estudantes de Erasmus, situado no bairro homónimo, a precisamente oito quilómetros da minha faculdade, a de Ciências, entre Vinohrády e Vysehrad, pousado quase à beira do rio Vltava. Para terem noção do quão compacta é a cidade de Coimbra, eu de minha casa - onde vivi quase toda a minha vida - levo pouco menos de meia hora a pé a chegar à Universidade. Eu não vivo naquele que é considerado o centro, mas quem vive em Coimbra tem normalmente sorte no diferendo da localização por tudo ser muito próximo. Tenho colegas no curso que me chamam louco por me deslocar a pé desde a minha casa; que diriam eles ao ver o que tenho pela frente, certamente a reação não seria menos chocante do que quando fiquei assim que o Google Earth me deu a localização da residência.

Não tenho hipótese, estou mesmo obrigado a tirar o passe de transportes públicos, e mesmo assim levo meia hora a chegar ao meu destino. O que vale é que os transportes em Praga, além de serem muito mais baratos, têm também um nível de organização absurdamente diferente de Coimbra ou até de Portugal inteiro: um em cada dois minutos quase, com paragens cronometradas em cada local, tudo na exatidão e prontidão de quem se exige rigor e eficiência. É, de fato, um mundo diferente. Um que eu quero muito estar. Mas até lá, tenho de atravessar a selva burocrática que me impõem. É um mal necessário.


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