sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Um emplastro português

Desde que finalmente a Iris assentou no quarto dela em Horanszky utca, Budapeste entranhou-se em mim numa perspetiva muito mais estável e eu consegui enfim identificar-me com a cultura húngara, o modo de vida quotidiano, e aproveitar para aprender alguns random facts como a história magiar, palavras úteis nativas ou sair à noite com a malta de Erasmus que constitui o grupo de colegas da faculdade da Iris.

A constituição dos colegas de casa não poderia ser mais diversa: dois irlandeses - um rapaz e uma rapariga - muito acessíveis, simpáticos, sorridentes e brincalhões; uma grega, sempre disposta a ajudar e a ser uma boa companhia; um italiano, mais recatado, calmo e bom rapaz; um vietnamita, que chegou apenas há uns dias mas que se tem provado ser um moço porreiro; e outro português, colega de curso da Iris em Coimbra, de seu nome Daniel. Ele e o colega de quarto irlandês, o Eddie, são verdadeiramente o coração e alma da casa e indubitavelmente os laços que mantêm o grupo unido, de certa forma. Fora do círculo caseiro, a primeira pessoa com quem nos começámos a dar mais foi outro português, um minhoto chamado Tiago, a partir de um encontro de portugueses em Erasmus com quem acabámos apenas por desenvolver amizade com um...em entre dezasseis pessoas. O grupo eventualmente alargou-se por ocasião dos encontros da Erasmus Student Network da faculdade da Iris, e acabei por conhecer não apenas a mentora húngara da Iris, de seu nome Reni, como mais dois portugueses, vindos de Lisboa, um arménio, duas belgas, dois turcos, dois mexicanos, duas espanholas, um croata e uma francesa, entre mais algumas mentoras locais. De fato, é meio engraçado que pelo meio de toda esta malta cosmopolita seja eu o temporário emplastro, por estar no meio do pessoal que vai aqui ficar e pertencente à rede que os interliga a todos e lá apareço eu, ali porque sim, nas fotos a sorrir e a ser mais uma peça integrante do puzzle humano. A verdade é que me acolheram bem pelo pouco tempo ainda passado, fazem-me sentir como um deles e costumamos sair todos juntos à noite.

A noite em Budapeste é algo de magnífico. Nas áreas compreendidas entre o 7º distrito, Oktogon, Andrássy út e Blaha Lujza tér as ruas estão repletas de pessoas à noite, acompanhadas dos nunca cessantes autocarros noturnos, lojas de conveniência abertos 24 horas por dia e vendedores de comida de rua, na sua larga maioria kebabs, gyros e pizzas. Reparei que Budapeste não está muito interessada em discotecas de dimensão larga, preferindo os recintos pequenos e mais casuais como os pubs e os bares. Mas alguns destes bares e clubes são lendários. Destaco o Instant, um prédio antigo reconstruído para albergar múltiplas galerias labirínticas que acabam em grandes quartos que funcionam como pistas, cada uma com o seu estilo musical, sempre cheio, sempre a bombar, e de entrada gratuita. É dos sítios mais afamados na cidade. O Szimpla é ainda mais lindo: um bar assentado sob um prédio em ruínas, completamente charmoso, também este amplamente procurado pelo seu ambiente fenomenal para estar a beber uma cerveja e conversar com a malta. O Fogasház é um recinto pequeno, um espaço aberto interior no fundo de um túnel, com uma atmosfera insana e com a maior percentagem de porcalhice e comilanço instantâneo de que tenho memória; pior só mesmo o Peaches & Cream, um club já com um estilo mais à NB mas ainda assim pequeno, que em noite de festa de Erasmus estava a pontificar na loucura sexual -- não consigo explicar sequer por palavras o que os meus olhos viram, além dos heróis solitários que tentavam engatar às quatro de cada vez, de vestidos muito ousados, casais a lambuzarem-se pelas faces todas, um britânico com 1,60m a dançar kuduro com umas três raparigas em cima rodeadas por um círculo de americanos todos à espera dos restos, tudo a suar e a cheirar a cavalo, moças a roçarem-se, rapazes a empurarrem e a meter conversa com tudo que tivesse vagina, um DJ gordo e com gravata a passar os hits do Gula lá do ano ido de 2013 (exceto a brasileirada, claro). 

Houve muito mais vida para além da noite. Budapeste NÃO é definitivamente uma cidade para se visitar em um ou dois dias. As opções são quase ilimitadas, e por muito que me quisesse alongar sobre os sítios aos quais fui e que constituem à data de escrita desta publicação quase 300 fotos no meu álbum do facebook, reduzir-me-ei aos nomes -- deixarei estas memórias para depois, se não me esquecer ainda delas.

A colina de Géllert e a Citadella proporcionou-me a melhor vista da cidade e um abre-caricas muito elegante com a forma de uma caneca de cerveja e uma respetiva inscrição a mencionar "Budapest". No sopé da colina, as termas homónimas relembraram-me o quanto tenho de poupar e renunciar a certas coisas; a Praça dos Heróis é gloriosa e memorável e dela retirei algumas das minhas melhores fotos, que publicarei em altura própria; a Váci utca, revisitada por mim depois da soneira do meu primeiro dia, conquistou-me pela sua elegância e compostura e foi aí que consegui finalmente um cachecol com motivos húngaros; a Basílica de Szent István, decididamente monumental, foi uma visita guiada com prazer pela Reni, numa altura em que aproveitei para trocar impressões com ela acerca da Hungria e de Portugal; ela também nos acompanhou no Grande Mercado, em Fovám tér, um encantador e ocupado armazém repleto de bancas a vender produtos frescos e artefatos tradicionais; o Castelo de Vajdahunyad, construído na mesma altura em que o Metro, no fim do século XIX, que nos transporta para um conto de fadas medieval; a Grande Sinagoga, das maiores da Europa; o Magyar Nemzeti Muzéum (Museu Nacional), com uma disposição permanente que abrange toda a história húngara desde a fundação do reino pelos Árpád, passando pela resistência aos otomanos, a anexação austríaca, o movimento de independência, o Tratado de Trianon, a perseguição judaica, até ao fim da era comunista; os passeios pelo Danúbio de onde podemos ver, perto do Parlamento, os sapatos judaicos junto ao rio como uma lembrança dos tempos obscuros do partido da Cruz de Setas no poder como um estado-fantoche do Terceiro Reich; e finalmente o Jardim Zoológico da cidade.
Apesar de tudo, ainda me falta imenso para visitar, e com muita pena minha não o farei a tempo da minha partida para Praga, marcado para daqui a menos de uma semana. Felizmente, voltarei cá mais vezes, com olhares mais atentos e menos deslumbrados, para vos poder contar tudo de uma forma que não seja à pressa, e de preferência com mais fotos. Por agora, contudo, deixo-vos com esta singular captura que registei no Zoo.

Esta é provavelmente a avestruz mais fotogénica que verei na vida! Mas amigável não era; momentos depois tentou bicar a Iris. Foi bem feita, ela não tinha nada que meter lá o dedo.


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