O meu segundo dia na Hungria foi provavelmente o mais preenchido desde que aterrei aqui até ao momento em que escrevo esta publicação, quase duas semanas depois (como o tempo passa a voar!...). Como eu gostaria de me desdobrar em histórias e descrições detalhadas sobre o que fiz nesse dia mas terei que apertar imensamente o cinto para ver se consigo retornar o fio à meada e compensar o tempo perdido.
Depois do acordar de uma bela manhã no Budapest Budget Hostel, com o ruído dos homens a passear incessantemente nos andaimes espalhados pela fachada, dirigimo-nos a Ors vézer tere pela primeira vez, paragem terminal da linha vermelha do Metro, para a Iris poder tratar de assuntos relacionados com a sua inscrição na faculdade dela, tentativa que se revelou fútil por o período de matrículas ainda estar longe do seu início. Acabámos por ir almoçar ao Ikea, muito próximo das instalações da faculdade, já a roçar os subúrbios de leste da capital, onde por surpresa vimos uma espécie de cantina low-cost repleta de todo o género de húngaros, nenhum estrangeiro. Menu de cachorro quente mais bebida com refill infinito: 250 forintos, o que equivale a algo como oitenta cêntimos. Era simples, nada gourmet claro, mas para aquilo que era dava perfeitamente.
De seguida fomos a um centro comercial adjacente, provavelmente o maior da cidade, o Árkád, que de certa forma fez-me lembrar o Colombo em Lisboa embora sem, obviamente, a dimensão deste último. Suscitou-me a curiosidade de uma espécie de cupões de descontos que eles têm, numa espécie de banca com duas moças a estocar papelinhos pequenos em cima de uma mesa onde as pessoas, quais abutres esfomeados, debicam cada papel como se de dinheiro se tratasse (na prática significava isso mesmo) e, de fato, dava para entender o porquê de tanto frenesim: descontos malucos em todas as lojas do complexo, do género que em Portugal se precisava de passar por uma complicação extrema mas que em Budapeste tudo se torna mais simples. Passas por um aperto e uma fila durante uns minutos e poupas algum para depois poderes comprar mais uma Soproni quando saíres à noite. Não está mau.
Invariavelmente, passámos o resto do dia, estando livres de quaisquer restrições, a conhecer mais partes de Budapeste. A primeira paragem foi Margit Sziget (A Ilha de Margarida), a famosa ilha a meio do Danúbio, fazendo a ligação entre as duas margens através de uma ponte pelo lado sul. Acabámos por não nos alongarmos muito pela ilha, indubitavelmente bela, mas confrontada com a vontade de Iris em seguir caminho para Buda. Para a memória ficaram as rápidas visitas ao complexo de piscinas no lado sudoeste e o grande repuxo d'água, a sueste, onde muitas pessoas aproveitaram a tarde de calor para molhar os pés e assistir a um evento musical.
Apanhando de novo o elétrico na ponta sul da ilha, debruçámos os olhos sobre a primeira aparição de Buda perante nós, e saímos em Széll Kálmán tér, pertíssimo do sopé da colina da cidade muralhada. Os prédios volumosos e estradas amplas preenchidas por veículos foram sendo substituídos por ruas íngremes com piso de calçada, casas de estilo mais tradicional, com traves de madeira similares às da arquitetura bávara, e a muralha cumprimentava-nos, rodeada de jardins verdejantes e com um museu, de aspeto antigo mas muito bem conservado. Uma pequena fonte, nas proximidades, deu-nos a muito necessária água para acalmar a sede nessa tarde tórrida. Vespas voavam em torno da desembocadura, e um homem na casa dos seus 50 anos aproveitava, sem medo, para encher o seu cantil.
As encantadoras ruas, que contrastavam em beleza e ordem com as sujas e desorganizadas vias de Ferencváros e Joszefváros, guiavam todas ao mesmo sítio: Mátyás Templom, a belíssima igreja, uma das mais deslumbrantes que vi até hoje.
As maravilhas mais evidentes estariam, no entanto, nas traseiras da igreja: a estátua de um dos heróis nacionais da Hungria, o Santo Rei Estevão (Szent István Király) e o Bastião dos Pescadores, um conjunto de pequenas torres, escadarias e muros absolutamente maravilhosos que proporcionam a segunda melhor vista sobre Pest, ultrapassado apenas pelo topo da colina de Géllert.
Mais para sul, outro monumento grandioso se ergue: o Palácio Real de Budapeste. Por muito que o tente descrever por palavras, nunca a harmonia da escrita ultrapassará a substância das imagens que tirei.
No caminho de volta a Pest, já a noite tinha caído, atravessámos a pé a Pontes das Correntes, a primeira a ser construída sobre o Danúbio naquela região e que ligou pela primeira vez Buda e Pest. Foi, aliás, por esta ponte, que se passou a unir as duas cidades e dando-lhe o nome que hoje tem. De dia o panorama é de cortar a respiração, mas à noite é simplesmente mágico.
Para finalizar o dia, acabámos por ir a Oktogon para jantar, num restaurante de buffet que a Iris tinha descoberto na Internet - supostamente por ser relativamente barato - mas a única coisa que concluímos pelo restaurante foi que ela não ganhou muito apreço pela cozinha magiar. Não achou muita piada aos molhos. Eu, por outro lado, considero que a carne deles é muito boa, sobretudo a picada. Deixam um pouco a desejar nos acompanhamentos, mas ao fim e ao cabo comi tudo o que podia por cinco euros e fui para a cama sem me poder queixar. Tinha que ser; era a última noite no hostel e no dia seguinte teríamos mais uma vez que carregar a bagagem atrás até Horanszky utca, que ainda era um esticão, até a Iris estabilizar definitivamente no seu novo quarto.





















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