A saída em Blaha Lujza Tér, e consequente subida à superfície, significou a primeira interação que tive com o centro de Budapeste e a minha reação não podia ter sido menos estupefata; estava absolutamente perdido (e eu sempre me havia considerado uma pessoa com excelente sentido de orientação) ao ponto de não saber para onde me dirigir para o que quer que fosse. Por onde virasse a cabeça, via edifícios lindíssimos, com fachadas muito antigas e de dimensão bíblica, a tornear uma interseção de estradas repletas de trânsito matinal (isto às seis e meia da manhã) e pessoas a ocupar os caminhos, ora dirigindo-se ao metro ou ao elétrico. Parecia que estava em Nova Iorque no início de um dia de trabalho. Note-se que até àquela altura não havíamos encontrado um estrangeiro que fosse, então a sensação genuína de sermos corpos estranhos nas artérias magiares era amplificada.
Era necessário, primeiro que tudo, obter forintos e redescobrir a posição da casa que a Iris teria que ver às dez da manhã. Deparámo-nos com outra caixa de multibanco da EuroNet pelo que eu assumi que seriam estas as caixas estandardizadas em Budapeste - ainda não tinha visto nenhuma da OTP, que é o principal banco magiar (e eu só sabia isto porque a liga húngara de futebol tem o nome desse banco). A Iris manifestou a sua vontade em levantar o máximo de dinheiro o quanto antes pelo que fomos mesmo considerar a opção oferecida pela caixa de "Fast Cash" e decidimos ir pela "No Conversion" que várias pessoas já com experiência no estrangeiro nos tinham sugerido. Não gosto nada de fazer este tipo de operações ao escuro e sem saber a respetiva taxa de conversão mas fomos à mesma sem saber quanto dinheiro perderíamos no processo porque teríamos que o fazer de qualquer das formas. Sucede-se que a quantia que ela pediu foi tanta que saiu um aviso qualquer a dizer que a quantia diária tinha sido excedida, juntamente com um recibo com informação em falta. Ficámos confusos e assustados porque não sabíamos se o dinheiro tinha sido retido para análise futura ou o raio e não o pudéssemos ter na hora ou algo do género. Esse medo apoderou-se de nós de tal forma que fomos ao McDonalds adjacente (sim, eles abrem às 7 da manhã aqui!) ver informações sobre este assunto na internet enquanto esperávamos que algum banco abrisse e nos desse um esclarecimento sobre uma situação que nada teria a ver sobre eles. Era basicamente uma causa perdida. Um pequeno banco nessa avenida - avenida essa que depois viria a saber que se chamava Joszef korut e que iria passar por ela todos os dias - abriu pouco depois e com muito esforço consegui concluir que de inglês os húngaros percebiam muito pouco e que não havia muita disponibilidade para serem prestáveis caso não houvesse interesse por parte deles. Acabei por ser eu por confortar a Iris dizendo-lhe que se na conta online o saldo dela estava intato, então a operação falhou e nada tinha acontecido. Acabámos, assim, por ir a uma loja de câmbio meio obscura que o senhor bancário me tinha recomendado (juro que não entendo porquê) e consegui trocar 50 euros por cerca de 15000 forintos, que deu algo como 47 euros. Não era o melhor, mas na altura foi bastante necessário.
Passámos algum tempo à espera - e a descansar, tal era a já considerável viagem que tínhamos feito com a pesadíssima bagagem atrás - num banquinho da dita avenida até que fossem horas de irmos ver a casa.
Sem fazer ideia das linhas de elétrico, fizemos o nosso caminho a pé (!!) até Horansky utca, por entre a cintura exterior do infame distrito VIII: ruas estreitas, com fachadas bastante uniformes e algo antigas, a fazer lembrar um pouco as da Rua Augusta embora mais degradadas, pavimentos em obras e desprovidos de pessoas (e foi a única vez que iríamos ver esta parte da cidade sem pedestres, talvez por causa da hora). Para variar, tínhamo-nos enganado na porta de casa até o senhorio, um jovem muito bem parecido chamado Gergely, se deparar connosco e nos guiar até ao sítio certo.
A casa que a Iris foi ver ainda estava em obras e, apesar da cozinha ter um aspeto irrepreensível, ainda havia trabalho a ser feito nos quartos, sobretudo naquele em que a Iris iria ficar, que era muito pequeno para as necessidades dela e tendo em conta o preço. O colega de curso dela e futuro flatmate, Daniel, já estava, porém, com a mente decidida e a insistência da Iris em permanecer com alguém com quem ela se sentisse mais segura imperou. Era ali que ela ficaria durante o semestre, e eu durante três semanas.
Tínhamos, no entanto, duas noites reservadas no Budapest Budget Hostel, em Ferencváros, muito mais para sul. A penosa viagem com as malas atrás tornou-se um caminho infernal sob o calor asfixiante de Budapeste; os termómetros registavam 35 graus ainda nem meio-dia era. Por esta altura, desabafei à Iris o quanto estava a odiar a cidade naquele momento e de que já estava arrependido em ter enveredado em Erasmus. Não entendia um piço do idioma, as coisas eram todas tão diferentes, e nada até agora estava a correr como planeado. Suados e cansados, chegámos ao hostel ainda antes da hora do check-in, implorando para que nos guardassem o estorvo que era a bagagem. Foi um enorme alívio e poderíamos ir almoçar com mais tranquilidade -- mas não. O que a Iris queria fazer imediatamente era passear pelas ruas mais bonitas de Budapeste, bem para lá da sujeira imunda em que nos encontrávamos e pela qual só tínhamos percorrido até agora; nessa circunstância eu, a ressacar ainda da Monumental Despedida, acordado há mais de 24 horas, exausto por andar a carregar malas debaixo de um sol abrasador e um ar tórrido, só queria era ir dormir num ambiente escuro e fresco. Tá bem tá. Fizemos caminho de volta depois de deixar as malas, subindo a Mester utca e apanhando o elétrico na Ferenc korut, que entretanto tínhamos pesquisado os caminhos, para a estação de metro mais próxima, Corvin-negyed. Mal suspeitaria eu também de que esta linha de elétrico em particular, a 4-6, era a principal em Budapeste e que faria uso dela diariamente.
Acabámos por ir pela linha vermelha e saímos na Lajos Kossuth Tér, que é a praça onde se situa o Parlamento. Eu não tinha paciência rigorosamente nenhuma para nada e estava com um sono insuportável; a Iris, no entanto começava a ficar encantada. Mais encantada ainda ficou ao atravessar algumas ruas mais para o interior e chegar a Deak Ferenc Tér, o tal centro da cidade e início dos quarteirões da Baixa, absolutamente fantásticos e tão ou mais luxuosos que a similar Baixa de Lisboa. Entre as familiares cadeias de restaurantes e lojas de marca encontravam-se também uma mixórdia de pessoas, muitas delas turistas, edifícios lindíssimos e as ruas muito bem tratadas, preços caríssimos em tudo e uma atmosfera que respirava glamour e imperialismo Habsburgo tal força teve a sua presença durante a Época Moderna. Não cheguei a tirar uma única fotografia devido à minha fadiga. A Iris, por seu lado, chocada pela reviravolta que a sua opinião sobre Budapeste teve, queria por todos os modos continuar a absorver tudo, mas instiguei-a a irmos almoçar e descansar um pouco. Há tempo para muito mais. Voltámos à Mester utca onde comemos um Gyros razoável por 600 forintos, o equivalente a dois euros, e depois fizemos finalmente o check-in no hostel, onde se enganaram no quarto (deram-nos um twin room em vez de um double room) e acabaram por dar-nos um quarto de qualidade muito acima do esperado. Não foi por aí que me queixei. Deitei-me na cama e comecei a dormir que nem gente grande no meio de uma tarde de muito calor.
Foi o fim do dia? Nem pensar nisso. Dei por mim com a Iris a acordar-me, querendo passear mais. Ai foda-se deixa-me descansar! Não havia nada a fazer. Decidi levá-la a um centro comercial e, com a ajuda da Internet, descobri a WestEnd City Center, perto da Estação de Nyugati, que podia ter algumas coisas interessantes. A divina bênção que era o elétrico 4-6 deixava-nos lá sem precisar de escalas ou transferências, de uma ponta à outra da cidade, sul a norte. Dentro do centro comercial, sorri ao reparar nas semelhanças entre as lojas portuguesas e as húngaras, mudando apenas a palavra PROMOÇÃO pela AKCIÓ, entre outras coisas, a mais curiosa sendo que o piso da restauração, tradicionalmente no topo da estrutura em Portugal, na Hungria aparentemente é no rés-do-chão. Engraçado. Outra coisa engraçada foi o fato de dentro de farmácias ou até do Media Markt estarem máquinas de refrigeração com bebidas, e filas de doces e chocolates ao pé de objetos como torradeiras ou altifalantes.
Jantámos num dos restaurantes do centro comercial, o Jack's Burguer, com uma qualidade surpreendente até, pelo preço, e reparámos que às 21 horas já as pessoas jantaram e as lojas se preparam para fechar. A Iris não se contentou e quis ainda dar uma espreitadela pela vida noturna de Budapeste, pelo que levei-a a Oktogon, onde as ruas estavam uma loucura mal a noite tinha caído, e depois a Kazinczy utca, a famosa rua dos Pubs, onde encontrámos um beco colorido repleto de bares mais virados para o convívio, absolutamente encantadores.
Acabei por sucumbir ao cansaço, ainda que estivesse um pouco mais aliviado em relação àquilo que Budapeste significava, e apressei-me em voltar ao Hostel pelo metro a partir de Deak Ferenc Ter enquanto ainda era hora (o Metro em Budapeste fecha às 23:30) e pus-me a dormir como se não houvesse amanhã. E a julgar pelo tamanho dos dois últimos textos, ainda assim a omitir muitos detalhes, também o leitor conseguirá determinar que foi um sono muito bem merecido.




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