domingo, 27 de setembro de 2015

Praga: a nova vida e a difícil adaptação

Mal me aguentava em pé no momento em que, numa sofreguidão imensa em não faltar o autocarro das seis e meia da manhã depois de uma noite de bar aberto absolutamente cruel para o meu fígado, entrei no veículo que me levaria para fora da minha agora amada Hungria. A camioneta da EuroLines apresentava desde logo uma novidade muito bem recebida por mim: à entrada estava localizado um cesto com garrafas de água, vitais para ajudar a dissipar a minha maleita alcoólica. Outra particularidade estava numas revistas disponíveis para quem quisesse ler, e a verdade é que foi a sopa de letras e o Sudoku a passar algumas das sete horas de viagem que tinha pela frente.

Depois de uma breve paragem em Bratislava, parámos na fronteira entre a Eslováquia e a República Checa para uma inspeção surpresa da polícia. Assumi que estavam à procura de imigrantes ilegais visto que pediram os passaportes de toda a gente. Eu, o único estrangeiro de relevância dentro da camioneta e logo com aspeto de magrebino fui o visado pelas autoridades quando apresentei à frente deles o meu cartão de cidadão português. O agente que o analisou, não convencido, reuniu um grupo de fardados lá fora para verem o cartãozito. Enquanto isso, todos olhavam para mim -- aqueles 15 minutos de fama que tu NÃO queres ter. Eventualmente ocorreu na cabeça dos senhores agentes que não havia problema nenhum e saíram tão depressa quando entraram.

Entre nova paragem em Brno e a chegada final a Praga, a camioneta acabou por chegar atrasada quase uma hora e dificultou grandemente a minha ordem de tarefas nesse dia, que consistia em apanhar todos os sítios que deveria ir até às cinco da tarde. Felizmente, consegui fazer tudo, ainda que em esforço. Registei-me na minha nova residência em Hostivar, tirei uma série de dúvidas em relação à cidade e a vários procedimentos e comprei uma pulseira para uma festa numa discoteca logo nessa noite (é sempre a andar meus filhos).

Lobby de entrada da residência de Hostivar, poiso temporário de toda a malta enquanto ainda não há internet nos quartos.


Conheci desde logo o meu novo colega de quarto, um cantábrico chamado Javi, que provou desde logo ser um rapaz cinco estrelas com tremenda disponibilidade, o que representou em mim grande alívio -- seria essencial ter um colega em quem pudesse confiar desde o início.

Ainda nem tive tempo de ir ao centro da cidade ver os monumentos e tirar fotografias. A busca frenética por estabilidade dentro do meu novo quarto fez-me ir muitas vezes ao centro comercial próximo daqui, Park Hostivar, para comprar bilhetes de transporte, arranjar o meu novo tarifário, imprimir algumas coisas, e comprar alguns itens essenciais como utensílios de cozinha e alguma comida mais básica. Acabei, no entanto, por comprar cerveja acima de tudo. O motivo? A foto em baixo:

Seis coroas equivale equivale a 22 cêntimos. Sendo que o vasilhame aqui tem um imposto acrescentado de 11 cêntimos, cada meio litro de cerveja mais barata custa 33 cêntimos. Sim, isso mesmo.


Logo na minha primeira noite, fui agraciado com festa de corredor no meu piso. Conheci uma panóplia de nacionalidades no processo, mas depressa aprendi que alemães e espanhóis são dois dos povos mais representados por aqui. Também havia alguns portugueses, mas o nosso contato foi muito ao de leve. Na saída à noite, novos problemas com a polícia: fui apanhado a beber o resto de uma garrafa de vodka em pleno metro, algo que fiz com uma inocência perigosa, e a entrada de quatro polícias que mais pareciam seguranças de modo a interpelar-me entre o imenso grupo de pessoas que lá estavam foi assustador, no mínimo. Perguntaram-me de onde era, identificaram-me, e disseram-me que ali era proibido beber em locais públicos. Estaria prestes a levar uma multa de 40€ mas safei-me ao mentir-lhe referindo que em Portugal o mesmo não era proibido e que ali estava apenas por um dia; ele fez-me prometer que me portaria melhor dali em diante. Houve pessoas que me confessaram que não tiveram a mesma sorte em escapar às autoridades quando foram apanhadas, por exemplo, sem título de transporte válido.

A noite em Praga não difere muito da de Budapeste, mas notei a presença de menos pessoas nas ruas, e estas seriam de cariz internacional; não reparei em muitos locais. Isso também se nota nos transportes: são menos frequentes, mais lentos e com menor taxa de ocupação. É normal: Praga tem pouco mais de um milhão de habitantes, Budapeste atinge os três milhões. Dentro da discoteca, o assunto era outro; tudo repleto de pessoal de Erasmus, uma verdadeira dança de pavões machos a tentar seduzir as fêmeas premiadas entre movimentos de roçar a perna, convites para beber algo, beijos no pescoço disfarçados de sussurros ao ouvido, tudo num ambiente de música que a mim pouco me diz. Apesar de tudo, a situação não é tão selvagem como alguns querem fazer passar: apenas uma taxa muito reduzida de pessoal se põe no comilanço, e a maior parte fica a arder, seja por que motivo for. Mas a intenção é sempre claramente a mesma, mas não se vê disso nas raparigas, talvez porque sejam elas à espera de movimentação do seu próprio alvo, ou porque elas gostam legitimamente daquela atmosfera e seja aquilo o seu pretexto de diversão.

Na verdade, e das vezes que já saí, dei em mim a arrepender-me por o ter feito. Fico com a impressão de que cheguei demasiado tarde e que todos os pequenos grupos já se formaram e as pessoas parece que já são amigas desde sempre porque dentro de todas as minhas tentativas de tentar arranjar malta com quem me dar, acaba tudo em frustração porque depois das conversas iniciais do "where are you from?" e do "what are you studying" e "are you enjoying Prague", as atenções viram-se para o restante grupo, com quem já têm confiança, ou, no caso da noite, passando pelo ignoro total. É deveras irritante: o falhanço em desenvolver esse nível de confiança com alguém provocou em mim uma mudança de mentalidade: deixei de tentar forçar a conversa, o sorriso, a dança no meio deles todos - porque isso não implicou resultados - e pus-me quieto, à parte dos grupos mas ainda entre eles, para ver se alguém reparava. Nada. Era impressionante, não sentia isto desde a secundária, onde me lembro que cheguei a desatar a chorar em plena sala de aula por pura solidão. Mas era isso mesmo: a pior solidão de todas é quando estás acompanhado mas és, na verdade, um fantasma.

O cúmulo aconteceu quando me fui sentar, cansado da travestia, e uma das tipas que estava a comer um alemão dentro do grupo perguntou se ia ficar ali e disse para lhe guardar o casaco dela, tendo depois voltado para o meio deles. Fiquei destruído por dentro. Ali estava eu, feito um beta de merda, a pensar que se estivesse neste momento em Coimbra teria tido um jantar de curso no meio de pessoas que adorava, a divertir-me e a apanhar uma chiba memorável. Não aguentei mais. Peguei em mim, fui-me embora para casa, confessei ao Javi (que é o mais próximo a um amigo que tenho ali por força de sermos colegas de quarto) que não está a correr bem esta nova adaptação, e ele até estranhou visto que eu falava bem inglês e espanhol. Eu também estranho. Não parece de mim. Não sei o que se passa comigo, ou com os outros, ou com o mundo. E isso está a deixar-me com uma confusão imensa e não sei como reagir a isto tudo. Por agora, só fiquei desiludido com a noção de que haveria mais pessoas na minha condição de chegarem sozinhas e terem de se pegar umas às outras com a maior das facilidades para se adaptarem melhor. Até agora, fiquei chocado com a dificuldade que tive em criar relações que passassem além da mera conversa casual. Nem em Budapeste isto me tinha acontecido, e eu nem fazia parte da faculdade deles.

Ok, tudo bem, ainda nem sequer me inscrevi na universidade e ainda só cá estou há quatro dias. Mas como já sempre disse, não gosto nada de não me sentir no controlo da situação. Tenho um medo enorme de passar o semestre inteiro a ir às festas sozinho ou a não ir de todo e a permanecer num estado passivo como me aconteceu no secundário.
Não é assim que devo pensar. Tenho que sair, visitar as merdas, fazer o que vim aqui para fazer que foi acima de tudo ver, experienciar e sentir atmosferas diferentes das de Portugal; não posso deixar que este contratempo inicial me deturpe os planos. Já dizia o outro que tudo acontece quando menos esperas, e isso é inteiramente verdade. Vou fazer a minha vida e depois logo se vê.



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