segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A grande volta ao Mar Húngaro

A sexta feira passada foi um dia bastante preenchido. Depois de ter ficado acordado até altas horas da madrugada para completar a minha mais recente publicação (o que provavelmente acontecerá hoje também!) acordei, com apenas uma hora de sono em cima, para nos encontrarmos com a mentora da Iris, a Reni, em Rákóczi tér perto das 10 horas da matina - relativamente cedo para mim - a fim de fazermos uma saída de campo a quatro pelo Lago Balaton, conforme elas tinham combinado previamente. A Reni avisou apenas para levarmos material para banho e algum dinheiro para ajudar a pagar a gasolina. Seria muito pouco para aquilo que viríamos a agradecer depois.
Ela veio ter connosco já dentro da estação de metro de onde seguimos pela linha verde até Bikás Park, onde conheceríamos o namorado da Reni, um rapaz chamado Balázs (pronuncia-se Báláche) que seria o nosso condutor para a viagem. Admito que o Renault dele, estilo desportivo, soltou em mim alguns sorrisos. Bastante confortável, por acaso.

Seguimos viagem em direção a sudoeste, saindo de Budapeste e entrando nas vias rápidas. Passámos o tempo a falar sobre as diferenças culturais entre Portugal e a Hungria, sobretudo a nível de preços, gastronomia e alternativas turísticas. Não posso deixar de pensar que foi sempre aquilo que queria como perspetiva de Erasmus: conhecer os locais e partilhar tudo o que sabia com eles, ao mesmo tempo que aprendia o que eles tinham para dar, e surpreender-me com as diferenças culturais e geográficas. É fascinante.

Parámos em Szekésfehérvár, a antiga capital do reino húngaro, plena de expetativa pessoal por ser aqui que estariam enterrados o primeiro rei da Hungria, Szent István Király, (Santo Rei Estêvão) e o seu filho, o Santo Príncipe Imre. Pensava eu que, por ser quem foram, estariam enterrados numa sumptuosa e decorada tumba com direito a todas as coqueluches, do estilo D. Afonso Henriques no Mosteiro de Santa Cruz, mas a verdade é que Szekésfehérvar mostrou ser uma meia desilusão para mim. A cidade, apesar de conter mais ou menos a população de Coimbra, tem um centro incrivelmente pequeno para a sua história, polvilhado com algumas igrejas que não são vista invulgar em Budapeste, e o local de descanso final do Rei Santo é, afinal, uma ruína a céu aberto, numa gravura vermelha incompreensível ao longe, visto para que se entrar na ruína era preciso pagar. Note-se que a ruína não passava de um par de colunas rodeadas por um muro no meio de um descampado e as ditas gravuras espalhadas pelo solo. Como se não bastasse, todo o centro histórico estava inexplicavelmente vazio, apesar do excelente tempo. Valeu a excelente pastelaria que encontrámos para tomarmos o pequeno-almoço.

Seguimos caminho para o Mar Húngaro, como os locais chamam a Balaton, desta vez a passar o tempo de viagem a aprender a pronunciar o idioma magiar num livro sobre o lago que a Reni me emprestou, apenas para provocar risos no casal da frente devido às minhas tentativas parcialmente bem sucedidas mas sem entender patavina do que estava a dizer. Aparentemente, era um livro turístico e eu estaria a dizer meios de transporte. Giro.
Foi-nos dito para fecharmos os olhos quando parámos o carro, numa ligeira colina verdejante e agradável, e saímos em direção a uma pequena torre de observação. Fomos agraciados com esta vista magnífica sobre a península de Tihany, o lago em geral, e Balatonfured ao fundo.








De seguida fomos à casa de verão da Reni, em Szántod, uma vivenda com quintal repleta de ternura, junto à margem sul do lago, alinhada com outras vivendas do género, um parque infantil ao perto e um café fechado. Trocava-se a relva por areia e diria que estávamos na Ilha da Armona. Fui surpreendido pela Reni ao aceder ao meu desejo prévio de provar csirkepaprika e ela mesmo preparou o almoço em casa, precedido de um shot de Pálinka (que é mesmo muito bom, por sinal, quase não se sente o álcool apesar dos 30%; deram-nos depois a garrafa, num gesto simbólico), estando tudo no ponto, desde a comida à companhia. Fiquei a sentir-me mal por não poder retribuir imediatamente tamanha hospitalidade que eles tiveram para connosco.



Não consegui aguentar a carga horária privado de sono e comecei a dormir durante a viagem à volta do lago, o que não significou muito visto que o caminho tomado foi o da via rápida, muitas vezes impossibilitando qualquer vista sobre o lago. A paragem seguinte foi Keszthely, no extremo sudoeste do lago, para ver o palácio de Helikon e o seu jardim; localidade esta que fica muito próximo de Héviz, uma vila termal com o maior lago natural de águas termais do mundo. Estava planeado inicialmente em irmos para aqui, mas não haveria tempo para tudo.
Parámos brevemente em Balatongyorok, para tirarmos mais fotografias ao lago, por outro ângulo, em que apanhasse a colina de Szigliget e o vulcão extinto de Badacsony (foi apenas ao aperceber-se da existência deste vulcão que se fez luz na minha cabeça do porquê da existência de tantas águas termais na Hungria). Acabámos mesmo por ir a Szigliget, uma fortaleza em ruínas usada sobretudo durante os tempos das invasões otomanas, subindo a colina e testemunhar a fantástica vista disponível em harmonia com os tornos muralhados do antigo forte empoleirado na colina soalheira.



Já a entardecer progressivamente, fomos a Tihany, a encantadora localidade na península homónima, onde a primeira coisa que vimos na igreja, banhada pelo sol sobre a encosta, foi um casamento - o quarto que vimos desde a nossa chegada à Hungria - seguido de várias lojas de souvenirs e de cafés. Ficámo-nos por um gelado, muito bom por sinal, de um pequeno quiosque perto de um marco intrigante assinalado como a câmara do eco. De lá, voltado para o lago, poderias gritar e ouvir o eco a uma longa distância. Fiquei impressionado depois de tentar a minha sorte. Publicaria aqui o vídeo mas a palavra que escolhi para berrar feito doido é de uma linguagem menos própria. Vá, não quero ofender susceptibilidades.

Fomos depois para uma espécie de pequena praia, junto à estrada peninsular, sem areia e apenas com um passadiço de pedra para colocarmos as toalhas, onde havia depois uma escadaria de metal semelhante à das piscinas, com acesso ao lago. A água, mesmo com o sol já por detrás das colinas, estava incrivelmente morna e o solo, lamacento, proporcionava uma experiência quase termal. A água é pouco profunda por uma distância tremenda e o seu movimento é inexistente. Ficámos por apenas meia hora, por força da pôr-do-sol, mas o mergulho que marcou o fim do verão não se esvanecerá da minha memória tão rapidamente.

A última paragem antes do retorno a Budapeste foi Balatonfured, a cidade mais populada e turística do lago. Os marcos significativos incluíram um hospital antigo, na verdade similar a um sanatório, águas com propriedades curativas (que sabiam mal como tudo), a marina de recreio repleta de patos e lindos ocasionais cisnes, e a avenida principal da cidade coberta de restaurantes e bares. Aproveitei para jantar aí visto que o regresso a casa ainda se afigurava longo, e experimentei uma comida de rua, muito apreciada por locais e turistas e que ainda não tinha visto chamada Lángos. Macacos me mordam se não foi a cena mais fixe que comi até hoje. Os húngaros chamam-lhe a pizza deles. A massa parece mesmo uma fartura, mas sem açúcar. O resto dos ingredientes era colocado por cima conforme os queríamos. Se abrisse uma cena destas na Sé Velha ou na Praça da República enchia-me de dinheiro todas as quintas-feiras.


Já de noite, não evitei o sono no carro depois do dia longo e da travessia igualmente extensa, mas plena de novidade e de emoção. Estou convicto de que foi o melhor dia que tive na Hungria até hoje e de que tanto a Reni como o Balázs fizeram de tudo para nos dar a melhor experiência possível e foram de uma disponibilidade incrível para nós. Além da minha eterna gratidão prometi-lhes a eles igual tratamento se eles algum dia fossem a Portugal. Terei sim o maior prazer em devolver ao dobro aquilo que me deram e eles são prova viva de que os húngaros, ao contrário do que a opinião pública comentarista do facebook quer fazer ver, são um povo extremamente prestável, generoso e hospitaleiro, com orgulho neles mesmos, é certo, mas de uma simpatia e humildade admirável. Prouvera tantos portugueses serem como eles.

PS: Reni and Balázs, if you're reading this - like you're supposed to! - here's stated my promise that if you ever convince yourselves to visit Coimbra some time I insist in receiving you as guests and to guide you throughout the country's hidden secrets in the same passion you demonstrated with me and Iris. No amount of words can explain how much I enjoyed the trip, companionship and gestures you both showed to us, people you barely know, and rest assured that it's an experience I won't ever forget in my life.

PPS: Come in May for Queima das Fitas and get unlimited beer! Balázs will surely love it!

PPPS: Save room in your lugagge to carry back some portuguese merchandise and ingredients to Magyarország. You'll definitely want/need it!



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