Faz hoje um mês desde que, com a minha bagagem e uma ressaca impossível, cheguei a Praga com um brilho nos olhos e um milhão de expetativas. Algumas foram defraudadas, outras bem fundadas, mas o certo é que, sem dúvida, posso dizer que já vivi uma panóplia de experiências dignas de serem contadas depois do jantar, num café qualquer da Praça, quando estiver de volta a Coimbra, tanto com amigos de longa data a quem lhes fiz a promessa de levar daqui algo, como a novos caloiros que eventualmente conhecerei (e praxarei, que eles nem pensem que se escapam!) e tentarei transmitir tudo de relevante sobre a vida académica que eles ainda não tenham aprendido com os meus colegas, que certamente estarão a fazer um bom trabalho este ano.
Às vezes dou por mim sentado na minha minúscula secretária partilhada com o meu colega de quarto e penso como seria a minha vida se tivesse optado por ficar em Coimbra neste ano, mas a verdade é que a escolha foi feita e não posso dizer que esteja arrependido dela. Desde a presenciar um jogo de hóquei no gelo pela primeira vez, a conhecer a vida noturna, a integrar-me no meio universitário praguense, até conhecer uma miríade de pessoas de nacionalidades diferentes, existem ainda os próprios locais, os imperdíveis checos e a sua cultura quotidiana, um pouco distante da nossa. Eis então as minhas impressões, facilmente perceptíveis, sobre como é estar entre quem para nós parece estranho como nós para eles seríamos estranhos.
1. - O desporto nacional na República Checa não é o futebol
Uma realidade por vezes tão criticada em Portugal devido ao mediatismo dado pela comunicação social, os rankings futebolísticos espelham por vezes uma situação recorrente nos países da Europa Central e da Escandinávia: simplesmente o futebol não é a prioridade, muito por causa do clima que por vezes consegue ser desfavorável e convida à prática de outros desportos, como os de inverno, que são dominados por esses mesmos países. O Hóquei no Gelo não é excepção e a República Checa faz parte do chamado grupo dos seis titãs que monopolizam o desporto a nível mundial. Assim, é de esperar um grande nível de qualidade na Liga Checa, considerada a quinta melhor do mundo na modalidade. Há uns dias vi a partida entre o HC Sparta Praha e o Piráti Chomutov na estrondosa O2 Arena. Ímpar e único. Fiquei fã da equipa desde então, que se destaca um pouco do seu homónimo de futebol em, entre outras coisas, o próprio nome e o emblema.
E acreditem que eles aqui levam isto muito a sério, chegando o próprio desporto a assemelhar-se a um espetáculo similar ao que acontece nos courts americanos.
2. - O dia tanto começa como acaba mais cedo...e as refeições também
Um dos maiores erros que cometi aqui foi pensar que os horários das refeições seriam parecidos com os de Portugal. Já na Hungria, logo no meu primeiro dia, havia testemunhado pessoas nos transportes públicos às cinco da matina. Na Europa Central trabalha-se mais e o ambiente humano é geralmente mais sério e muito menos carpe diem do que nas regiões mediterrânicas. Em Portugal, as pessoas combinam tomar café numa esplanada exterior às 22:30, mas na República Checa os amigos juntam-se em pubs para beber cerveja depois do trabalho, geralmente às 17:00. Sim, porque a hora de jantar aqui é entre as 18h e as 19h. Os checos saem à noite às 22h e às duas da manhã já chega. Na pátria mãe essa hora é quando a noite de alguns começa...
Para desalento meu, isso também significa que os horários da cantina (que se chama Menza) funcionam de forma semelhante e a primeira vez que lá fui, às 13h, armado em turistão, haviam-me dito que já só havia o prato vegetariano; tudo o resto estava esgotado por pessoas que apanharam a minhoca mais cedo. Aprendi da forma dura que aqui almoça-se às 11:30h ou arriscas-te a ter que gramar com queijo frito acompanhado de batata cozida. E porra que eles aqui adoram batata.
Este é o prato que mais vulgarmente aparece no Menza, e um dos mais tradicionais da cozinha checa: carne de vaca (hovezi pecene) com bolinhos de massa (knedlíky).
3. - Não te metas com as autoridades checas, ou com os próprios checos
Já aqui tinha mencionado as minhas desventuras com a lei aqui em Praga logo depois da minha chegada, mas os senhores agentes adoram descascar em tudo; não precisam de ser sequer agentes -- quando a Iris esteve aqui por uns dias bastou-lhe estar no elétrico sem bilhete, na esperança de quando aparecesse um pica a cena seria comprar-lhe um bilhete de condutor já que não se podia fazê-lo no motorista. Era bom não era? O pica apareceu logo no primeiro elétrico que apanhou em Malá Strana (antes de eu ter arranjado passe de 5 meses andei à socapa pelo menos umas seis vezes nos elétricos 22 e 26, ela teve muito azar) e sem dizer uma palavra, passou-lhe logo uma multa de 800 coroas (30 euros). Ora toma lá. A partir desse momento a Iris passou oficialmente a odiar Praga. Um alemão aqui do meu piso também não teve a mesma sorte que eu relativamente a beber dentro das estações de metro: a mim perdoaram-me, já ele apanhou o agente em mau humor e levou logo com 1000 coroas em cima. Palavra de menção honrosa para os hooligans racistas do clube de futebol do Sparta de Praga que deram porrada num francês colega nosso. O motivo? Estar simplesmente ali metido com eles, não és checo já ardeste. Já me avisaram que corro um risco enorme em andar na rua com um cachecol do HC Sparta e apanhar adeptos do Slavia à frente. Cruzes, já me deram relatos de alguns skinheads que passavam aí por Florenc e Karlín com braçadeiras nazis. Desconfio da veracidade: o pior que já vi até agora foi um jovem checo perdido de bêbedo no autocarro das 3 da manhã a mandar vir com um amigo dele e a dar-lhe uma cabeçada, ao passo que o outro fugiu na paragem seguinte enquanto o Zidane lhe dizia para se ir embora e as senhoras idosas um pouco mais à frente discutiam a situação baixinho, e eu a rir-me que nem um desalmado.

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