4. – Guarda-chuva é para meninos
Um dos motivos pelo qual escolhi fazer Erasmus nesta altura
do campeonato prende-se com as condições meteorológicas mais favoráveis na
Europa Central: enquanto que em Portugal a época da chuvada aparenta ter sido
declarada, aqui raramente vejo aguaceiros, e quando os vejo são muito
espaçados, escassos, molha-tolos. De fato, aqui a precipitação, embora muitas
vezes recorrente, é leve e até confortável, tendo em conta que em terras lusas
não costuma chover muito, mas quando chove…é a doer. Em Praga mal senti a chuva
ainda e prova disso é eu nem ter necessidade ainda de comprar um guarda-chuva.
Nem eu nem todos os outros, que mesmo em dias nublados não costumam sair com
tão indispensável acessório. Em contrapartida, porém, raramente se vê o sol já
que o tempo nublado é uma constante em Praga, com o ocasional rasgo de sol a
trazer uma certa jovalidade quando esporadicamente dá o ar da sua graça.
5. – Cerveja rainha e senhora…será?
Qualquer supermercado aqui terá uma dupla ala inteira
dedicada aos mais variados tipos de cerveja e a verdade é que se perde a conta
das marcas diferentes disponíveis: há as mais populares, como a
Pilsner-Urquell, a Staropramen, a Gambrinus e a Kozel e depois uma série de
nomes obscuros que ao fim e ao cabo acabam todos por saber ao mesmo e trazem alegria
ao povo e são acima de tudo, cerveja checa. Todo o estudante de Erasmus que se
preze tem sempre uma grade de qualquer coisa no seu quarto de residência.
Bastantes checos que conheci, porém, parecem não apreciar muito deste néctar;
os que gostam dela bebem aos barris, os que não gostam procuram alternativas
irónicas como o vinho (que vem sobretudo da Morávia) ou o café. Ah, sim, café.
Aí está algo que eles adoram. Aqueles cafés do género Starbucks com nomes
italianos para poderem cobrar mais só porque tem estilo. Creio ser natural do
checo fugir um pouco ao estereótipo e tentar ser hipster no meio de um mar de
turistas sedentos da experiência cervejística numa tentativa fútil de se
parecerem com os locais. Os próprios checos que conheci, aliás, não são muito
de beber álcool; algo contrastante com a vasta maioria tuga que quando apanha
uma tasca à frente torna-se hora do bagaço.
Felizmente, pubs como o Hány Bány retêm muito da mística centro-europeia e ainda conseguem dar um ambiente agradável a quem quer beber a sua jola ao fim do dia.
6. – Evita o centro se não queres ser chulado à campeão
Em Budapeste isto verificou-se, em Lisboa é mais que
evidente, mas em Praga é um absoluto abuso. A diferença de preços se comprares
algo em Vrsovice ou em Zizkov e depois em plena Stare Mesto ou em Hradcansky é
brutal, o motivo vai sempre redondamente dar ao mesmo: a turistada toda que se
amontoa nesses sítios numa procura desenfreada por artigos locais que na
maioria das vezes de local não tem nada e são apenas imitações baratas dos
chineses. À parte esse aspeto, o custo de vida em Praga é muito semelhante a
Coimbra, e ligeiramente mais barato que em Lisboa. Tanto no Albert como no
Tesco (aqui o Lidl é uma valente merda), os preços apresentam algumas variações
em relação a produtos essenciais em Portugal: a cerveja é obviamente a primeira
a saltar à cabeça, com uma média de 1/3 do preço normal. Coisas como
chocolates, cereais, pães e fruta são também algo mais baratos. Menção honrosa
para a nossa amiga vodka que aqui se consegue comprar por 3 euros e também para
o frango assado, que uma vez apanhei a 50% de desconto no Albert e levei um
inteiro por 39 coroas…ou cerca de 1,40€. Ah pois é. Por outro lado, cenas como
a água, a carne, o leite, ovos, utensílios, bolachas, vinho, óleo (esqueçam o
azeite porque não há), molhos e praticamente tudo o resto que não mencionei é
mais caro. Imprimir qualquer coisa em sítios que não sejam a faculdade é
insano: dez coroas (40 cêntimos) por folha. Comer no McDonalds fica a cerca de
4€ sem descontos e beber cerveja num pub fica a pouco mais de 1€, mas sair à
noite pode ficar consideravelmente caro dependendo do sítio e das bebidas que
se pede. Confesso ter saudades do custo de vida de Budapeste, onde um gajo com
6€ tinha direito a bar aberto ou com 1,5€ comia um Gyros que o deixava cheio para
o resto do dia. Ainda bem que estou de volta por uns dias!
Provavelmente a loja mais engraçada da Cidade Velha mas perde logo a piada quando verem os preços das gomas a cada 100 gramas.
7. – Uma maneira de estar completamente diferente
Os checos são por natureza pessoas muito formais e
respeitadoras, e fazem questão de fazer valer os seus títulos, se assim os
tiverem, em todas as ocasiões. Sempre tive isto em mente e nunca perdi a
oportunidade de fazer a minha melhor figura em cada interação com os locais,
não porque me fica bonito fazê-lo, mas simplesmente porque é isso que é
esperado de mim e de qualquer outra pessoa aqui. A título de comparação, começo
com os transportes públicos: em Portugal, frequentemente se faz uma cena
melodramática quando um idoso se quer sentar num lugar e a pessoa que cede
desfaz-se em palavras elogiosas com o público espetador a abanar a cabeça em
sinal de aprovação perante tal ato heróico de ficar em pé durante uns minutos
para que alguém mais necessitado pudesse ter o seu descanso. Em Praga, assim
que um idoso entra no autocarro ou no elétrico, a pessoa mais próxima
levanta-se, sem dizer nada, e fica de pé, quase que imediatamente. Até podem
haver lugares vazios mais à frente, que não importa: o respeito que têm pelos
anciãos, grávidas ou deficientes é infinitos e todos fazem questão de meter no
subconsciente a preocupação pelo próximo, algo tão forçado muitas vezes na
Tugalândia. Mais flagrante ainda é a situação dos alunos, mas desta vez em
contexto de Erasmus: em todas as aulas em que estive até agora, ninguém piou o
que quer que fosse e a atenção e interesse ao que o professor dizia, num inglês
muito fraco e em slides de powerpoint mal feitos, era absolutamente exemplar.
Fiquei estúpido da cabeça ao recordar-me das tantas vezes nos anfiteatros da
FLUC a malta fazia da vida do professor um inferno (e alguns não mereciam
mesmo) ao ponto de este ter de interromper a aula para mandar calar o pessoal,
algo impensável no ensino superior, e mais impossível ainda no ambiente de aula
checo, mesmo que em Erasmus. Um exemplo de civismo vindo de todos os cantos da
Europa.


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